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Como ser contemporâneo, num mundo contemporâneo

(Parte II)

É no quadro de superação da grande crise e da Segunda Guerra Mundial que o fordismo foi condicionado pelo keynesianismo, passando então a dar suporte a uma ordem internacional estável, liderada pelos EUA: a Guerra Fria constituiu uma Pax Americana. Foi este o novo modelo econômico que possibilitou a internacionalização comercial e financeira sob a égide dos Estados Unidos. Esta era foi dominada pela bipolaridade da Guerra Fria, que constituía tanto um conflito como um sistema. O Sistema de Yalta, que regulou as relações internacionais desde 1945, introduziu o conceito de superpotência, como forma de reduzir o papel das potências coloniais europeias e as derrotadas potências do Eixo.

Com uma Europa dividida e não mais constituindo o centro do sistema internacional, o capitalismo mundial passava a ser integrado sob o comando de Washington e Nova Iorque, e o bloco soviético representava apenas um polo regional e reativo, com os EUA se tornando o tipo ideal fordista-keynesiano e o centro do mundo. Ao mesmo tempo um vigoroso processo de descolonização expandia o sistema westfaliano de Estados-nação ao conjunto do planeta. Entretanto, desde os anos 1970, com a emergência da III Revolução Industrial e seu paradigma científico-tecnológico, iniciou-se o processo de desgaste da hegemonia norte-americana e de recorrentes estratégias de reafirmação por parte dos Estados Unidos. Este fenômeno produziu uma profunda reformulação internacional, cujo marco referencial foi a desintegração do campo soviético.

Finalmente, o sistema internacional pós-hegemônico, marcado pela “globalização” e formação dos blocos regionais, e pela instabilidade estrutural que acompanha a competição econômica e o reordenamento político internacional a partir dos anos 1990, sinalizam o início de uma nova fase de crise e transição, na luta pelo estabelecimento de uma nova ordem mundial. Nela, configura-se a emergência da Ásia Oriental, particularmente da China, como novo polo desafiador à liderança anglo-saxônica.

Além disso, a base deste período consiste na busca de estruturas que permitam um desenvolvimento estável, o que passa pelo domínio e acomodação dos paradigmas da Revolução Científico-Tecnológica, a qual presentemente está implodindo as estruturas preexistentes.

No último século, o primeiro desafio à ordem mundial anglo-saxônica se deu a partir de dentro do próprio sistema, quando a Alemanha, primeiro isoladamente, e depois acompanhada pelo Japão e pela Itália, tentaram obter um lugar dentro da ordem capitalista, resultando em duas Guerras Mundiais. Um segundo desafio partiu de fora do sistema, com o socialismo soviético tentando criar uma alternativa à ordem existente, trazendo como consequên¬cia a Guerra Fria. O terceiro desafio, atualmente em curso, emergiu na Ásia Oriental, particularmente através da China, constituindo um fenômeno misto, economicamente dentro da ordem capitalista, mas politicamente exterior a ela. Além disso, a passagem do século XX ao XXI significou também uma época de crise e transição rumo a um novo período histórico, com o início do declínio do ciclo de expansão Ocidental, iniciado há cinco séculos.

Assim, a realidade mundial atingiu tal dinamismo sob a globalização, que se produziram novos e imensos desafios e possibilidades. É preciso identificar o impacto de tendências como a megaurbanização e o futuro do Estado-Nação. De qualquer maneira, alguns imperativos são claros: o individualismo e a sociedade de consumo (inimiga do meio ambiente) tendem ceder lugar a uma sociedade norteada por valores societários. Por este caminho os benefícios da ciência e da civilização tenderão a ser estendidos ao conjunto da humanidade. A alternativa a estes imperativos seria a estagnação ou a regressão, em meio à violência indiscriminada, tal como já ocorreu em outras fases da história. Em 11 de setembro de 2001, mesmo os que se recusavam a pensar estas questões, viram-se na contingência de fazê-lo.

Ney Iared Reynaldo, doutor em História da América, docente do curso de História/ICHS/CUR/UFMT e membro da academia de letras, cultura e Artes do Centro Oeste em Barra do Garças – MT. Email: niaredreynaldo@bol.com.br

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