Konrad Felipe/Jornalista – konradfelipe@gmail.com
Interrogatório histórico no STF encerra fase de instrução da ação que apura tentativa de ruptura democrática; julgamento ainda não tem data, mas defesa e acusação terão 15 dias para apresentar alegações finais.
Na manhã de terça-feira, 10 de junho, as luzes do Salão de Sessões da Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal iluminaram um encontro inédito: Jair Messias Bolsonaro, 69 anos, pela primeira vez mirou, a poucos metros de distância, o ministro Alexandre de Moraes — magistrado que se tornou seu maior antagonista nos estertores do governo e no pós-Palácio. O ex-presidente, agora réu, foi interrogado durante quase duas horas e negou ter tramado um golpe para impedir a posse de Luiz Inácio Lula da Silva, eleito em 30 de outubro de 2022.
Em tom surpreendentemente cordial, Bolsonaro pediu desculpas a Moraes por declarações passadas, rebaixou a própria influência política — “sou carta fora do baralho” — e classificou os vândalos do 8 de janeiro de 2023 como “malucos” e “pobres coitados”. A audiência foi transmitida ao vivo pela TV Justiça, acompanhada por emissoras, portais e jornais de todo o mundo.
Quatro eixos do depoimento
Retórica amansada
“Golpe é abominável”, afirmou o ex-chefe do Planalto, sem repetir os ataques reiterados às urnas eletrônicas que marcaram seus comícios. Reconheceu ter debatido “alternativas” pós-derrota, mas disse tê-las descartado por ferirem a Constituição.
“Carta fora do baralho”
Impedido de disputar eleições até 2030, Bolsonaro cobrou que “os senhores” — ministros do STF e do TSE — recuperem a confiança popular no sistema de votação. Analistas consideraram o gesto um aceno à Corte que ele já rotulou como inimiga.
Pedidos de desculpas em série
Além do ex-presidente, o ex-ministro da Defesa Paulo Sérgio Nogueira e o ex-ministro da Justiça Anderson Torres também se retrataram por falas contra o Supremo. O movimento contrasta com a estratégia de confronto adotada nos palanques de 2022.
Distanciamento do 8 de janeiro
Acusado de liderar organização criminosa que visava manter-se no poder, Bolsonaro descolou-se dos atos que destruíram as sedes dos Três Poderes. Disse que quem “realmente fez a baderna foi embora” e que não houve golpe porque “o day after seria imprevisível”.
Outros depoentes e contradições
Nos dois dias de audiência, sete aliados compuseram o banco dos réus: os generais Augusto Heleno, Walter Braga Netto e Paulo Sérgio Nogueira; o almirante Almir Garnier; o deputado Alexandre Ramagem; o ex-ministro Anderson Torres; e o tenente-coronel Mauro Cid, delator que sustenta ter sido Bolsonaro quem revisou a chamada “minuta do golpe”. Garnier negou ter posto tropas à disposição do então presidente; Braga Netto, preso desde dezembro por obstrução, riu ao lembrar ao ministro que “está preso”; e Torres disse que o texto encontrado em sua casa era apenas “uma minuta do Google”.
O que vem agora
Com a fase de instrução concluída, defesa e Ministério Público Federal têm 15 dias para entregar as alegações finais. Depois disso, Moraes — relator da ação penal 2668 — liberará o processo para julgamento na Primeira Turma do STF, ainda sem data definida. Se condenado por todos os delitos (liderar organização criminosa, tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito, golpe de Estado e danos ao patrimônio da União e tombado), Bolsonaro poderá pegar mais de 40 anos de prisão. Independentemente do veredito, continua fora da disputa de 2026 por duas condenações no Tribunal Superior Eleitoral.
Por que isso importa ao Vale do Araguaia
A escalada institucional que chegou ao banco dos réus em Brasília ecoa no interior: nas urnas de 2022, Bolsonaro venceu em praticamente todos os municípios do Araguaia mato-grossense, mobilizando bases de produtores rurais, comerciantes e lideranças evangélicas. Entre políticos regionais, há expectativa de que a definição jurídica sobre o ex-presidente reconfigure alianças para 2026 — inclusive na corrida à prefeitura de Barra do Garças, onde o bolsonarismo ainda é capital eleitoral.
Enquanto isso, no STF, o processo avança. A próxima cena desse julgamento — um dos mais importantes da história republicana — colocará os oito ministros da Primeira Turma (alguns indicados pelo próprio Bolsonaro) diante de uma decisão que ultrapassa o destino do réu: definirá, em alguma medida, quanto valem as instituições quando confrontadas por seus próprios ocupantes.






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