Konrad Felipe/Jornalista – konradfelipe@gmail.com
“Foi escolha deles.”
É assim que muitos líderes evangélicos tentam encerrar qualquer debate moral sobre guerras, massacres e injustiças. Jogam sobre os ombros dos mortos a responsabilidade pelo que lhes aconteceu — como se a tragédia fosse fruto exclusivo do tal “livre-arbítrio” e não de decisões políticas, estratégicas e, muitas vezes, desumanas. A guerra em Gaza, os mísseis no Irã e as bombas lançadas de ambos os lados viram pano de fundo para um discurso simplista e confortável: “Está nas mãos de Deus.” Mas será?
A instrumentalização teológica que boa parte das igrejas evangélicas brasileiras faz do conflito no Oriente Médio beira o absurdo. O apoio acrítico ao Estado de Israel — inclusive com bandeiras israelenses tremulando em altares de igrejas e marchas gospel — é, antes de tudo, político. E, como todo apoio político, precisa ser discutido.
A identificação com Israel não é apenas uma questão de fé; é um alinhamento ideológico que mistura dispensacionalismo bíblico, anticomunismo, cultura de guerra e, mais recentemente, bolsonarismo. A bandeira azul e branca virou símbolo não do povo judeu, mas de uma teologia importada dos Estados Unidos, moldada para convencer o fiel de que a modernidade está a serviço do diabo — e que só Israel representa a última esperança da civilização “judaico-cristã”.
Mas a Bíblia não manda ninguém apoiar governos genocidas.
O que o Antigo Testamento narra são pactos espirituais, não tratados de defesa militar. E quando Jesus, o Cristo, subiu ao Calvário, não o fez para sancionar bombas ou abençoar tanques de guerra. Sua mensagem foi de paz — e sua morte, provocada justamente por interesses políticos e religiosos, não deveria ser esquecida por quem se diz seu seguidor.
Aliás, vamos falar francamente: foram os líderes religiosos judeus da época que entregaram Jesus para ser crucificado, segundo os próprios evangelhos (Mateus 26:3-4; João 11:47-53). E, no entanto, hoje, vemos evangélicos idolatrando um Estado moderno que sequer reconhece o Cristo como o Messias. Isso é fé ou é oportunismo político disfarçado de espiritualidade?
Há uma distorção proposital nessa narrativa.
O Estado de Israel contemporâneo é uma construção política, não uma extensão literal da “terra prometida” bíblica. Não há na Bíblia mandamento para apoiar ataques a hospitais, cercos a civis famintos ou bombardeios indiscriminados. Ainda assim, evangélicos são instruídos a “abençoar Israel” como se isso fosse um mandamento eterno — e não uma interpretação recente, fundamentada por uma teologia norte-americana, branca e conservadora.
É o caso do dispensacionalismo, corrente teológica que surgiu no século 19 e que enxerga Israel como o “relógio do fim do mundo”. A criação do Estado em 1948 foi, para esses pregadores, o estopim do apocalipse. Cada míssil lançado em Gaza seria um sinal profético, cada ataque israelense, uma etapa da “batalha final entre o bem e o mal”. Uma fé moldada para o medo, para o controle e, principalmente, para justificar violências como atos de Deus.
Mas Deus não é general de exército.
Não manda tanques para a Faixa de Gaza.
Deus — ao menos o que está nos evangelhos — se compadece do órfão, da viúva, do estrangeiro, do oprimido.
No Brasil, a mistura entre fé e política encontrou no bolsonarismo o seu apogeu. Jair Bolsonaro, ex-presidente, percebeu cedo que bastava posar ao lado de rabinos, colocar um quipá na cabeça e citar Jerusalém para conquistar votos evangélicos. E deu certo. Tarcísio de Freitas segue o mesmo roteiro: enrolado na bandeira de Israel, sobe em trios elétricos gospel como se estivesse ungido por algum pacto milenar. Enquanto isso, em Gaza, mulheres e crianças continuam a morrer.
E aqui em Barra do Garças?
Muitos fiéis locais, sinceros em sua devoção, reproduzem essa narrativa sem saber sua origem. Igrejas da cidade penduram a bandeira de Israel no púlpito ao lado da do Brasil. Não porque entendam o conflito, mas porque foram ensinadas a crer que “quem abençoa Israel será abençoado”. Enquanto isso, ignoram os ensinamentos de Jesus sobre a paz, a misericórdia e a compaixão pelos povos feridos.
É preciso romper o silêncio e denunciar:
Essa idolatria ao Estado de Israel não é fé.
É manipulação teológica.
É política travestida de profecia.
E pior: transforma evangélicos em massa de manobra de projetos autoritários. Muitos acreditam estar cumprindo a vontade divina — quando, na verdade, estão apenas alimentando a máquina da guerra, da intolerância e do lucro político. Como já disse um antigo pensador: o problema não é a fé. É o uso que fazem dela.






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