Quando a ideologia custa caro

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Konrad Felipe/Jornalista – konradfelipe@gmail.com

A partir de 1º de agosto, entrará em vigor uma tarifa de 50% imposta pelos Estados Unidos a diversos produtos brasileiros. A medida, anunciada pelo presidente Donald Trump e dirigida diretamente ao governo Lula, na prática atinge em cheio o agronegócio dos estados governados pelos aliados de Jair Bolsonaro: Tarcísio de Freitas (SP), Romeu Zema (MG), Mauro Mendes (MT) e Ronaldo Caiado (GO).

Os setores afetados são de peso: café, carne bovina, açúcar, etanol e suco de laranja — produtos centrais na pauta de exportações do Brasil e que têm nos EUA um dos seus principais mercados. Ao mirar politicamente em Lula, Trump, na verdade, atinge o coração da economia agrícola de estados que apoiaram e seguem sustentando o ex-presidente Bolsonaro.

O custo da lealdade ideológica

É irônico que os governadores mais alinhados ao bolsonarismo agora acusem o presidente Lula pelos impactos econômicos do tarifaço. Tarcísio afirmou que o governo federal colocou “ideologia acima da economia”. Caiado, em tom inflamado, disse que Lula atacou Trump e “não representa o sentimento patriótico do povo”. Já Zema empurrou a conta da crise comercial para Lula, Janja e o STF.

Mas a realidade é outra. A medida americana tem motivações políticas claras: foi anunciada em meio ao julgamento de Bolsonaro no STF por tentativa de golpe, citado como uma “vergonha internacional” por Trump. O presidente republicano atribui as tarifas a “ataques do Brasil às eleições livres” e à liberdade de expressão, usando como justificativa uma narrativa bolsonarista.

O agro de SP, MG, MT e GO — justamente os maiores polos de produção de cana, café, carne e suco — será diretamente afetado. São Paulo, por exemplo, exporta 83,8% do etanol brasileiro e responde por mais de 60% das vendas externas de açúcar. Minas Gerais é responsável por quase metade de todo o café produzido no país. Mato Grosso lidera o ranking nacional, com aproximadamente 34 milhões de cabeças de gado, o que representa cerca de 14,2% do rebanho total do país. Goiás tem o quarto maior rebanho bovino. Todos esses produtos agora pagarão 50% a mais para entrar no mercado americano.

Bancada Ruralista, em silêncio cúmplice, pede socorro

A Frente Parlamentar Agropecuária, conhecida como Bancada Ruralista — que sempre se mostrou leal a Bolsonaro e ajudou a compor a base do golpe — foi pega de surpresa com a realidade dos mercados. Após a carta de Trump, a mesma bancada que tem entre seus membros entusiastas do trumpismo como Pedro Lupion (PP-PR) e Eduardo Bolsonaro (PL-SP) saiu a público pedindo “diplomacia” e uma “resposta estratégica” do governo federal. A hipocrisia beira o cinismo.

Lupion, que celebrou a volta de Trump à presidência em suas redes sociais, agora pede que Lula reabra diálogo com o governo americano. Já Eduardo Bolsonaro, em total submissão, defendeu a medida de Trump e propôs como “solução” a anistia aos golpistas. Enquanto isso, o setor produtivo se vê diante de um cenário de incertezas e prejuízo bilionário.

O agro financiou o golpe. E agora colhe o preço

O agronegócio brasileiro não é espectador inocente dessa crise. Investigações da Polícia Federal mostram que parte do setor contribuiu com recursos para o plano golpista. Segundo o ex-ajudante de ordens de Bolsonaro, Mauro Cid, ao menos R$ 100 mil em espécie foram entregues pelo “pessoal do agro” para financiar o monitoramento de autoridades e outras ações antidemocráticas.

Ou seja, setores do agro financiaram o golpismo — e agora enfrentam as consequências geopolíticas dessa aposta perigosa. A história parece repetir a velha máxima: quem semeia ventos, colhe tempestades.

Trump, tarifas e o declínio do império

A decisão de Trump, embora apresentada como resposta ao “autoritarismo petista”, tem raízes mais profundas. A tarifa de 50% é menos uma retaliação ao Brasil e mais um sintoma do declínio do império americano. A política de guerra tarifária já foi aplicada contra a China, Europa e até aliados históricos. Agora, o Brasil entra na mira.

Essa não é uma questão comercial racional. O Brasil vende aos EUA majoritariamente bens primários — como café, carne e suco — e importa tecnologia, equipamentos e produtos industriais. O déficit comercial é nosso. Mesmo assim, Trump decide encarecer alimentos que o próprio povo americano consome, como carne e laranja, para agradar sua base política e fortalecer a narrativa trumpista.

Como apontou a economista Juliane Furno, essa medida faz parte de um conjunto de ações dos EUA diante da crise de hegemonia global. A ascensão da China, o fortalecimento dos BRICS e a instabilidade no sistema monetário internacional estão levando os EUA a abandonar as regras do livre comércio em favor de um novo protecionismo agressivo.

O futuro do agro: diplomacia ou isolamento?

A resposta ao tarifaço será um teste para o agronegócio brasileiro. Continuar alinhado a um projeto político antidemocrático e antiglobal pode significar o isolamento comercial. Por outro lado, uma guinada diplomática — com menos ideologia e mais pragmatismo — pode recolocar o Brasil no caminho do diálogo e da estabilidade.

A ironia final é que, agora, os mesmos ruralistas que acusaram o governo de “comunista” e “inimigo do agro” suplicam ajuda ao Itamaraty. Como diria um antigo provérbio da roça: quem planta mentira, colhe prejuízo.

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