Konrad Felipe/Jornalista – konradfelipe@gmail.com
A semana política brasileira foi marcada por um novo capítulo no enredo turbulento do bolsonarismo: Jair Bolsonaro, ex-presidente da República, agora ostenta uma tornozeleira eletrônica. Uma imagem que, para alguns, representa justiça sendo feita; para outros, uma humilhação injusta. O fato, no entanto, vai muito além da esfera pessoal do ex-mandatário. Ele revela a escalada de uma crise institucional sem precedentes entre Brasil e Estados Unidos – uma espécie de jogo de truco geopolítico em que ninguém mais pode correr.
A Polícia Federal encontrou dólares em espécie e um pen drive suspeito na casa de Bolsonaro. As justificativas, como de costume, vieram confusas: o dinheiro estaria declarado (ou seria declarado no próximo imposto de renda); o pen drive seria da esposa (ou de um visitante, ou nem sabe de quem é). A dubiedade virou regra e não exceção. Mas o detalhe que chama atenção é outro: mesmo com fartas evidências que sustentariam uma prisão preventiva, o Supremo Tribunal Federal preferiu aplicar uma medida cautelar mais branda. Uma decisão jurídica com tintas políticas, para não incendiar ainda mais o país.
Enquanto isso, Eduardo Bolsonaro, em tour pelos Estados Unidos, age como um chanceler paralelo. Conversa com autoridades americanas, articula sanções contra o Brasil e prega, sem pudor, por intervenção estrangeira no país. Essa movimentação, somada à crescente influência do trumpismo sobre o bolsonarismo, tem gerado efeitos concretos. O governo dos EUA, sob nova gestão de Donald Trump, começou a taxar produtos brasileiros, revogar vistos de ministros do STF e ameaça aplicar a temida Lei Magnitsky – que congelaria bens de autoridades brasileiras e isolaria o país do sistema financeiro global.
A ironia está em ver quem se dizia patriota pedindo ajuda estrangeira para punir sua própria nação. Os mesmos que acampavam diante de quartéis clamando por intervenção militar agora batem às portas da Casa Branca, como filhos desesperados. “Liberta meu pai”, parece dizer o deputado Eduardo em sua cruzada diplomática disfarçada de loucura conspiratória.
Mas o cenário interno é ainda mais grave. Em coletiva de imprensa, parlamentares bolsonaristas voltaram a defender um novo 8 de janeiro. A narrativa do “comunismo à porta” reaparece como justificativa para golpes, agitações, rupturas. É um roteiro cansado, mas perigoso – porque ainda encontra palco e plateia.
Neste tabuleiro, o Brasil tenta manter a institucionalidade. As sanções americanas geram reações à altura: o governo federal estuda retaliações, como tarifas, quebra de patentes e limitações ao envio de lucros de multinacionais para o exterior. O jogo virou, e a mesa agora é internacional.
Wellington Fagundes, senador de Mato Grosso, parece não perceber a gravidade do momento. Em vez de se posicionar em defesa das instituições democráticas, aparece em Brasília sob uma bandeira norte-americana de Donald Trump. Um gesto simbólico que o alinha mais à conspiração do que à Constituição. O povo mato-grossense, que luta no dia a dia por melhores condições de vida, saúde e educação, precisa de representantes comprometidos com a soberania nacional, e não de figurantes em atos de bajulação internacional.
Enquanto Bolsonaro lamenta o uso da tornozeleira como “suprema humilhação”, o Brasil tenta lidar com algo muito mais profundo: a tentativa sistemática de sabotagem à sua democracia. A dúvida que paira sobre o ar do Planalto é simples e cortante como faca afiada: se os requisitos para prisão preventiva estão dados, por que ainda não se aplicou a lei com todo seu rigor?
A resposta pode estar no equilíbrio institucional que ainda resta. Ou no medo de transformar um político em mártir. Mas o risco continua sendo o mesmo: se o truco já virou seis, talvez já tenha quem esteja gritando doze.
E o Brasil? Vai aceitar a carta ou vai bater?






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