Nossos filhos na mira: o preço cruel da adultização digital

Foto: Reprodução

Konrad Felipe – Jornalista
konradfelipe@gmail.com

Durante décadas, o Brasil conviveu com a sexualização precoce da infância como um traço mal disfarçado de sua cultura midiática. O que antes aparecia nas tardes de domingo, entre banheiras de espuma e crianças dançando coreografias adultas na televisão aberta, hoje se alastrou como praga pelas redes sociais. A diferença? Agora está ao alcance de um clique, sem filtro, sem horário, sem vigilância — e com lucro.

A chamada adultização — quando crianças e adolescentes são expostos (ou expõem-se) a comportamentos, visuais e contextos tipicamente adultos — não é nova. Mas o que mudou foi a velocidade e a profundidade com que isso se espalha graças aos algoritmos gananciosos das big techs, que operam sem regulação séria, sem prestação de contas e, pior, com incentivos financeiros para que esse tipo de conteúdo prospere.

Recentemente, o influenciador digital Felipe “Felca” Bressanin, que ficou conhecido por enfrentar as casas de apostas ilegais, publicou um vídeo de 50 minutos escancarando o mercado da adultização infantil nas redes. A denúncia é perturbadora: perfis infantis sexualizados sendo promovidos pelos algoritmos, alimentados por curtidas, comentários — e pedófilos. Sim, estamos falando de criminosos que se alimentam da impunidade digital para consumir e até interagir com esse conteúdo sob a complacência das plataformas.

Esse vídeo viralizou — alcançou mais de 47 milhões de visualizações, chegou ao Jornal Nacional e empurrou o debate até as portas do Congresso. Projetos de lei voltados para a proteção de crianças na internet foram desengavetados, pressionados pela indignação pública. Mas por mais importante que esse primeiro passo seja, ele está longe de resolver o problema. Punir um ou outro influenciador que lucrou com essa exposição é necessário, sim — mas é enxugar gelo se não encararmos a raiz: as plataformas que ganham dinheiro com isso.

Pais, mães e responsáveis, é hora de enxergar com clareza. O TikTok, o Instagram, o YouTube e outras redes não são espaços neutros de expressão. Eles são empresas movidas por métricas, cliques e, sobretudo, dinheiro. Quanto mais tempo seu filho ou filha passa rolando a tela, maior o lucro deles. E se a sexualização chama atenção e garante engajamento, ela é promovida.

Felizmente, a sociedade começa a acordar. O vídeo do Felca fez o que muitos não conseguiram: criou consenso. A adultização é errada, é nociva, é criminosamente tolerada pelas plataformas e precisa acabar. Agora, cabe a nós — cidadãos, pais, educadores — pressionar o Congresso por regulamentação séria, exigir responsabilidades das redes sociais e, acima de tudo, proteger nossas crianças.

Felca propôs algo simples e poderoso: proibir a monetização de conteúdos que envolvam crianças e adolescentes. Com isso, acaba-se o incentivo financeiro. E se não dá lucro, a exposição infantil deixa de ser uma moeda de troca. Sem likes, sem dinheiro, sem público — e, com sorte, sem predadores.

Mas não sejamos ingênuos. Esse caminho trará resistência. As big techs dirão que é censura. Haverá quem defenda a “liberdade” das redes, ignorando que se trata, aqui, de proteger os mais vulneráveis da nossa sociedade. O debate precisa ser maduro. Censura é uma coisa. Regulamentar para impedir abusos é outra completamente diferente.

E enquanto esperamos que as leis avancem, a responsabilidade mais imediata ainda é nossa, pais. Conheça as plataformas que seus filhos usam. Monitore o conteúdo que consomem e produzem. Questione o que está por trás das dancinhas virais, dos filtros e dos “desafios” inocentes. E, principalmente, ensine que o valor de uma infância saudável não pode — jamais — ser trocado por curtidas.

A sociedade brasileira já pagou caro demais por sua negligência histórica. Não podemos repetir os mesmos erros num novo formato, com uma nova embalagem digital.

Seja o primeiro a comentar sobre "Nossos filhos na mira: o preço cruel da adultização digital"

Deixe um comentário

Seu endereço de e-mail não será publicado.


*