Konrad Felipe/ Jornalista – konradfelipe@gmail.com
O Brasil de 2025 assiste, atônito, à cena de um Jair Bolsonaro muito diferente daquele que governou o país entre 2019 e 2022. Diante do Supremo Tribunal Federal e a poucos passos de uma possível condenação que pode somar até 43 anos de prisão, o ex-presidente pede orações, fala de fé e mostra-se fragilizado. Um contraste gritante com o homem que, durante a pandemia, desprezou o sofrimento coletivo e ironizou as centenas de milhares de mortos.
Naquele passado recente, frases como “E daí?”, “Chega de mimimi” e “Todos nós vamos morrer um dia” ilustraram uma postura fria diante da tragédia. Hoje, porém, a frieza cedeu lugar à súplica. Bolsonaro não chora pelos 700 mil cadáveres da Covid-19, mas parece abalado quando o sofrimento bate à sua própria porta. É a velha diferença entre a dor alheia e a dor própria.
O julgamento expõe não apenas um homem, mas todo um projeto de poder. A trama golpista revelada pelas investigações — com a minuta do golpe, o chamado “punhal verde-amarelo” e reuniões com generais — desmonta a narrativa de que tudo não passava de “conversas” ou “brincadeiras”. As provas existem, estão documentadas, e os advogados do ex-presidente têm a ingrata missão de defender o indefensável.
Mais uma vez, o bolsonarismo mostra seu talento para o ataque, mas não para a defesa. Nas redes sociais, é fácil desviar o foco: “E o PT?” ou “E o Lula?”. No plenário do STF, esse truque não funciona. O tribunal não é espaço para memes, mas para provas. E elas são fartas.
A ironia histórica é que Bolsonaro, acostumado a apostar na impunidade, deixou um rastro de evidências contra si. Documentos, reuniões, discursos, vídeos, delações. Tudo registrado, tudo somado. E, como bem lembrou um ministro da Corte, quando um presidente da República convoca a cúpula militar para discutir um golpe de Estado, o crime já está em andamento.
No fundo, o que está em julgamento não é apenas Jair Bolsonaro, mas a própria democracia brasileira. Punir atos preparatórios de um golpe não é exagero, é prevenção. Depois que tanques estivessem nas ruas, não haveria mais retorno.
Bolsonaro agora se apresenta como um homem quebrado, pedindo clemência. Mas a justiça não é tribunal de emoções. Não se trata do quanto ele chora hoje, mas do que ele fez ontem. O contraste entre a arrogância de um governante que zombava de vidas perdidas e o desespero de um réu acuado é, por si só, pedagógico.
Seja qual for a sentença, o episódio deixa uma lição clara: nenhum poder é absoluto, nenhuma narrativa resiste ao peso das provas. E, cedo ou tarde, até os que acreditaram ser intocáveis descobrem que a lei das consequências é mais severa que qualquer retórica de palanque.






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