Konrad Felipe/Jornalista – konradfelipe@gmail.com
As estatísticas são brutais. Segundo o Escritório de Direitos Humanos da ONU, 247 jornalistas foram assassinados em Gaza desde outubro de 2023. O Comitê para a Proteção de Jornalistas confirma 197. Números que já superam a soma dos profissionais mortos em todas as guerras do Vietnã, Iugoslávia, Afeganistão e até mesmo nas duas guerras mundiais. Gaza entrou para a história como o lugar mais mortal do planeta para quem segura uma câmera, um microfone ou um bloco de anotações.
No último 25 de agosto, o Hospital Nasser, em Khan Younis, virou alvo de um ataque duplo das Forças de Defesa de Israel. O saldo: 20 mortos, entre eles cinco jornalistas — profissionais que, minutos antes, registravam o resultado do primeiro bombardeio. O segundo míssil os atingiu em cheio. Uma prática chamada de “ataque de tiro duplo”, denunciada por entidades internacionais como estratégia premeditada para eliminar socorristas e repórteres.
Não é apenas a morte. É a tentativa de apagar a testemunha. Silenciar as lentes que documentam, sufocar as vozes que narram, transformar a imprensa em alvo militar. De acordo com o Sindicato dos Jornalistas Palestinos, mais de 200 profissionais foram assassinados, 520 ficaram feridos e 206 estão presos desde o início da guerra. Além disso, 115 veículos de comunicação foram destruídos na Faixa de Gaza. A barbárie não se restringe a tanques e bombas: ela se volta contra a informação.
O que está em jogo
O jornalista brasileiro José Hamilton Ribeiro, que perdeu uma perna ao cobrir a Guerra do Vietnã, sabe bem que o preço da reportagem em zonas de conflito é altíssimo. Mas hoje, em Gaza, esse preço se transformou em sentença de morte. O próprio Comitê para a Proteção de Jornalistas classificou o conflito como “o esforço mais letal e deliberado para silenciar a imprensa já documentado”.
A FENAJ (Federação Nacional dos Jornalistas) lançou recentemente uma proposta para a criação de um Dia Internacional em Defesa dos Jornalistas Palestinos, com paralisações simbólicas em redações do mundo inteiro. Um ato de solidariedade, mas também de denúncia: o massacre de jornalistas não pode ser naturalizado.
Uma ferida aberta
É preciso se perguntar: o que significa uma guerra sem jornalistas? Significa depender apenas da versão dos generais, dos governos e das máquinas de propaganda. Significa não ver os rostos das vítimas, não ouvir os gritos de uma criança em ruínas, não ter acesso às imagens que nos incomodam e nos arrancam da inércia.
Quando o ex-correspondente Anas al-Sharif, da Al Jazeera, escreveu uma mensagem prevendo sua própria morte, deixou um testamento amargo: “Nunca hesitei em transmitir a verdade como ela é, sem distorção ou deturpação”. Ele foi executado em agosto, acusado por Israel de ser militante do Hamas — a mesma acusação que se repete contra outros jornalistas palestinos, como se todos que contam a história pudessem ser reduzidos a combatentes.
A fome como arma
Além dos bombardeios, há o bloqueio. Jornalistas que sobrevivem aos mísseis enfrentam outro inimigo: a fome. Organizações internacionais e até veículos como Reuters, BBC, AFP e Associated Press denunciaram que seus profissionais em Gaza estão sem condições de alimentar suas famílias. Não se trata apenas de censura pela bala — trata-se de fome como estratégia de silenciamento.
O nosso silêncio
A cada jornalista morto em Gaza, um pedaço da democracia mundial é enterrado. Se o jornalismo é eliminado, o que resta é a escuridão da propaganda.
A pergunta que fica para nós, leitores e cidadãos do Vale do Araguaia, é direta e desconfortável: até quando aceitaremos, em silêncio, que a profissão que tem como missão contar a verdade seja executada como inimiga de guerra?
O jornalismo não pede aplausos. Pede o direito de existir. E, diante do que se passa em Gaza, esse direito está sob ataque como nunca antes na história.






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