O escândalo do “careca do INSS” e a pizza que já está no forno

Foto: Reprodução

Konrad Felipe/Jornalista – konradfelipe@gmail.com

O Brasil acompanha, estarrecido e ao mesmo tempo anestesiado, mais um escândalo bilionário envolvendo dinheiro público — desta vez, o roubo histórico de R$ 6 bilhões da Previdência Social, dinheiro que deveria garantir a dignidade de aposentados e pensionistas. No centro do palco, um personagem já apelidado pela crônica política de “Careca do INSS”, Antônio Carlos Camilo Antunes, cuja imagem virou sinônimo do maior golpe contra os aposentados brasileiros.

A cena beira o surreal: o homem que ostentava carros esportivos e vida de luxo sendo levado de carona em uma viatura da Polícia Federal para depor no Senado. No entanto, em vez de respostas, o que se viu na CPMI do INSS foi espetáculo barato — deputados e senadores transformando a investigação em um ringue de insultos, bate-boca e cortes ensaiados para o TikTok.

O relator Alfredo Gaspar, ex-promotor de justiça, parece ter deixado o ofício de lado para se dedicar a ser provocador. Preferiu repetir à exaustão o apelido “Careca do INSS” e inflar seu engajamento nas redes, em vez de usar sua experiência para desmontar o esquema. O resultado? Sessão suspensa, nota de repúdio da OAB e mais uma demonstração de que a política brasileira, quando se rende ao espetáculo, trai sua função mais nobre: defender o povo.

Enquanto isso, parlamentares como Fabiano Contarato mostraram que é possível avançar com seriedade. Foi lendo documentos áridos, mas essenciais, que ele conseguiu demonstrar a rota do dinheiro: do INSS para associações, destas para empresas ligadas ao próprio acusado. É nesse caminho minucioso que se revelam os verdadeiros culpados — não no barulho de microfones cortados ou em discursos inflamados.

Infelizmente, o que se anuncia é o desfecho já conhecido: mais uma CPI que termina em pizza. Não porque faltem provas ou testemunhos, mas porque sobra performance e falta compromisso. Entre caronas em camburões e discursos com chapéu de alumínio, o Congresso segue alimentando a desconfiança de que, no Brasil, escândalos não são solucionados — são apenas reciclados.

O jurista uruguaio Eduardo Couture escreveu que “quando o direito entrar em conflito com a justiça, lute pela justiça”. A lição cabe perfeitamente aqui: se a democracia formal, feita de rituais e shows parlamentares, atrapalha a democracia real — aquela que deveria garantir aposentadorias, saúde e dignidade — então estamos diante de um conflito perigoso.

O caso do “Careca do INSS” expõe mais do que um desvio bilionário. Expõe o vício de uma política que prefere o palco ao processo, a curtida ao relatório, o escárnio à seriedade. E quem paga essa conta, no fim, não é o careca, não são os deputados, mas o povo. O mesmo povo que, todos os meses, espera o benefício cair na conta para comprar remédio, pagar aluguel e sobreviver.

E a pergunta que fica, amarga e recorrente, é: até quando?

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