Entre o poder e o decoro: a lição que Aragarças insiste em reaprender

Foto: Reprodução

Konrad Felipe/Jornalista – konradfelipe@gmail.com

Na noite de segunda-feira, 13 de outubro, o plenário da Câmara Municipal de Aragarças voltou a ser palco de um roteiro conhecido. Mudam-se os atores, mas o enredo permanece: denúncias, afastamentos, comissões processantes e discursos inflamados sobre perseguição e inocência. Desta vez, o protagonista é o vereador Junior Saião, afastado por 90 dias após a aprovação, por maioria absoluta, de uma Comissão Processante (CP) que vai apurar supostas infrações político-administrativas e possível quebra de decoro parlamentar.

A denúncia, apresentada por um morador da cidade, relata um episódio ocorrido no dia 1º de outubro, quando o parlamentar teria seguido, filmado e constrangido um servidor da CasaLar, instituição que acolhe crianças em situação de vulnerabilidade. A ação, realizada durante o transporte de uma criança da Escola Dom Bosco até a sede da instituição, teria provocado desconforto e temor entre servidores e menores.

O caso gerou repercussão imediata. A Prefeitura, por meio de nota, repudiou qualquer forma de intimidação a servidores e determinou apoio psicológico às crianças que presenciaram a cena. A primeira-dama Raqueline Galvão acionou equipe da Saúde para atendimento emergencial. O prefeito Dr. Ricardo Galvão classificou o episódio como “inaceitável” e determinou à Procuradoria Jurídica que acompanhasse o caso.

Em sua defesa, o vereador nega as acusações. Disse ter agido motivado por denúncia de uso indevido de veículo público e afirma que, ao perceber tratar-se de uma atividade institucional, teria interrompido a gravação e elogiado o servidor. Para ele, o afastamento representa uma “cortina de fumaça” para desviar a atenção de outros temas, como o embargo judicial da Praia Quarto Crescente, cuja liminar foi provocada, ironicamente, por denúncias apresentadas por ele e pela vereadora Ana Paula Paulino.

Seja qual for o desfecho, o episódio expõe uma ferida antiga na política de Aragarças — a dificuldade de compreender os limites entre o poder e o decoro, entre o papel fiscalizador do vereador e o respeito às instituições e pessoas que servem à cidade.

A CasaLar, alvo involuntário dessa celeuma, é um projeto construído a muitas mãos, símbolo de humanidade e proteção social. Inaugurada em 2022, nasceu da parceria entre o Executivo, o Ministério Público, o Judiciário e os municípios de Bom Jardim e Baliza. Em três anos, já acolheu 20 crianças e adolescentes, oferecendo cuidado, segurança e dignidade — um espaço que deveria ser lembrado pelo acolhimento, não pela tensão política.

Enquanto o suplente Cleybiomar da Saúde se prepara para assumir a cadeira de Saião, e a Comissão Processante inicia seus trabalhos sob a presidência do vereador Jeronimo Neto, paira sobre o Legislativo Aragarcense uma nuvem de déjà vu.

Três afastamentos em duas legislaturas. Três histórias diferentes com um mesmo pano de fundo: o desgaste institucional e a erosão da confiança pública.

No microcosmo de Aragarças, cada novo escândalo parece apagar as lições do anterior. Talvez porque, no jogo político local, os erros se reciclam com a mesma facilidade com que se renovam as legislaturas.

No fim, a população assiste — ora perplexa, ora descrente — a mais um capítulo da novela que insiste em se repetir.

E como todo bom enredo político, o desfecho ainda está por vir.

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