Quando a política vira ringue

Konrad Felipe/Jornalista – konradfelipe@gmail.com

O Brasil já não é para iniciantes há muito tempo, mas confesso que a cena do deputado estadual Renato Freitas protagonizando uma briga de rua em Curitiba adicionou mais um capítulo ao nosso já vasto manual antropológico da vida pública brasileira.

O vídeo, que viralizou mais rápido que promessa em época de eleição, mostra o parlamentar cercado, desafiando três homens — “Vem os três!” — como se estivesse no meio de um UFC improvisado na calçada. Até aí, espetáculo puro. Mas o debate nas redes, como sempre, ficou no básico: quem bateu, quem apanhou e se teve replay em câmera lenta.

Só que há uma certa ironia histórica por trás desse episódio. Renato é um político que carrega nas costas anos de perseguições, tentativas de cassação, polêmicas infladas e fake news que até hoje circulam como se fossem dogma dominical. Desde a manifestação antirracista de 2022 na histórica Igreja do Rosário dos Homens Pretos que não tinha missa acontecendo, diga-se de passagem até o dia em que o homem foi acusado de “escândalo” por dar carona para a própria mãe no carro oficial.

A verdade é que qualquer tropeço dele vira manchete. Um gesto vira denúncia. Uma carreira inteira é julgada por oito minutos de vídeo e uma briga de rua que poderia ter terminado muito pior.

Mas o que realmente chama atenção nesta novela nacional é o capítulo local: Barra do Garças, sempre vigilante da moralidade alheia, resolveu dar seu toque especial.

Sim, tivemos por aqui um pré-candidato comemorando nas redes sociais o soco que o deputado paranaense levou. Um tipo de torcida organizada política, daquelas que vibra mais com a desgraça do outro do que com a própria capacidade de apresentar proposta.

Como se a agressão física de um parlamentar fosse motivo de festa. Como se política fosse campeonato de MMA. Como se bater ou apanhar fosse programa de governo.

Se isso é prévia do tom eleitoral de 2026, preparem o protetor bucal.

Enquanto isso, o debate que deveria importar sobre violência política, sobre como tratamos parlamentares negros, sobre como distorcemos fatos para caberem na narrativa que queremos passa reto pela timeline de quem está mais preocupado em postar meme do que entender o contexto.

Renato Freitas não é santo, nem pretende ser. Como qualquer figura pública, comete erros, reage, às vezes explode, às vezes mantém a calma de um monge tibetano sendo revistado no aeroporto. Mas transformar uma briga de rua em troféu político… ah, isso diz muito mais sobre nós do que sobre ele.

O que se viu nas redes de Barra do Garças não foi opinião. Não foi crítica. Não foi análise.
Foi torcida.

E torcida, meu amigo, deveria ser só para futebol não para violência.

Se a política continuar nesse ritmo, daqui a pouco vai ter pré-candidato anunciando promessa de governo em pay-per-view de confusão.

No fim, fica um pedido simples:
Menos ringue. Mais República.

Menos briga. Mais responsabilidade.

E, por favor, menos comemoração da desgraça alheia já basta o noticiário.

A democracia agradece. O bom senso também.

Seja o primeiro a comentar sobre "Quando a política vira ringue"

Deixe um comentário

Seu endereço de e-mail não será publicado.


*