Konrad Felipe/Jornalista – konradfelipe@gmail.com
Há histórias que parecem pedir silêncio antes que se tente compreendê-las. A morte de Gerson o “Vaqueirinho”, jovem de 19 anos morto após invadir a jaula dos leões no zoológico de João Pessoa é uma dessas. E talvez o primeiro silêncio necessário seja para afastar o ruído cruel das redes sociais, onde parte da população comemorou sua morte como se fosse um espetáculo.
Mas basta dois minutos de atenção no caso para perceber que não há espetáculo algum ali. Só há dor, abandono e falha coletiva.
Gerson não foi um “delinquente que encontrou o que procurou”, como alguns apressadamente defenderam. Antes disso, ele foi uma criança de 10 anos encontrada andando sozinha na beira de uma estrada. Filho de uma mãe diagnosticada com esquizofrenia, neto de avós também comprometidos pela saúde mental, criado em pobreza extrema, institucionalizado desde cedo e rejeitado por todos os lados: pela família, pelo Estado, pela sorte.
A conselheira tutelar Verônica uma das raras pessoas que conheciam Gerson para além dos boletins de ocorrência o acompanhou por oito anos. Foi ela quem correu atrás de laudos, acompanhamentos, alertas formais e informais. Todos negligenciados por um sistema que preferiu rotular o garoto como alguém com “problema comportamental”.
Problema comportamental?
Que garoto “mal comportado” tenta se esconder no trem de pouso de um avião para “ir cuidar de leões na África”?
Que adolescente “mal criado” invade jaulas de animais selvagens como se pudesse domá-los?
Isso não se chama mau comportamento. Isso se chama transtorno mental grave — e urgência de tratamento.
Mas Gerson jamais recebeu o tratamento necessário. Um mês antes da tragédia, a Justiça determinou sua internação psiquiátrica. Não havia para onde mandá-lo. Hospitais psiquiátricos desapareceram, CAPS não dão conta, e a engrenagem do Estado costuma funcionar exatamente na velocidade contrária à que a vida pede.
A pergunta inevitável não é por que Gerson entrou na jaula dos leões.
A pergunta é: como ele permaneceu solto, abandonado, invisível e sem assistência até que a tragédia acontecesse?
Quando o diretor da penitenciária afirma que “a nossa parte fizemos”, quando o Conselho Tutelar afirma que “não vai se calar” porque lutou sozinho por anos, fica claro que a falha não foi de uma instituição isolada, mas de uma máquina inteira. Uma máquina que, ao ignorar a doença, empurrou o jovem para o abismo.
E ainda assim, depois da morte dele, houve quem celebrasse. Quem tratasse a tragédia como punição, merecimento, piada. Uma sociedade que comemora a morte de um doente mental revela menos sobre ele e mais sobre nós.
Essa história deveria provocar indignação, não sarcasmo.
Deveria provocar reflexão, não memes.
Deveria provocar políticas públicas, não linchamentos virtuais.
Gerson morreu como viveu: sozinho.
Mas sua morte escancara aquilo que fingimos não ver: o Brasil não sabe lidar com a saúde mental. Não enquanto política pública, não enquanto responsabilidade social, não enquanto humanidade.
E, no fim, a pergunta que fica é brutal na simplicidade:
se Gerson precisava de ajuda, quem deveria tê-lo ajudado?
A resposta é curta:
Todos nós.
E não fizemos.
Talvez seja tarde para Gerson. Mas ainda não é tarde para olharmos com a vergonha necessária para o que nos tornamos quando tratamos a doença mental como frescura, como desvio moral, como piada de internet.
Se a vida dele não sensibilizou o Estado, que ao menos sua morte sensibilize a sociedade.
Porque tragédias como essa não acontecem por acaso.
Acontecem por negligência.
E negligência, ao contrário da loucura, é perfeitamente racional.






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