É o amor… ou é o ódio? Quando a música deixa de unir e passa a separar

Konrad Felipe/Jornalista – konradfelipe@gmail.com

Zezé Di Camargo sempre cantou sentimentos universais. Amor, abandono, saudade, perdão. Canções simples, diretas, muitas vezes rotuladas como bregas, mas que atravessaram gerações exatamente por falarem com o Brasil real. Aquele que chora, sofre, se apaixona e canta junto, sem pedir licença à crítica especializada.

É justamente por isso que a recente polêmica envolvendo o cantor provoca tanto desconforto. Não se trata apenas de uma opinião política manifestada por um artista. O que está em jogo é algo mais profundo: a tentativa de transformar a música, espaço tradicionalmente plural, em instrumento de exclusão ideológica.

Ao criticar publicamente o SBT por receber o presidente da República e um ministro do Supremo Tribunal Federal, e ao sugerir que seu especial de Natal não fosse exibido por discordar dessa presença, Zezé ultrapassou a fronteira da manifestação pessoal. Ao fazê-lo, insinuou que sua arte só deveria circular entre aqueles que compartilham de sua visão política. É aí que nasce o que muitos já chamam de autoritarismo musical.

A lógica é perigosa. Se levada às últimas consequências, significaria que o público precisaria passar por um teste ideológico antes de apertar o play. Gostar de uma canção deixaria de ser um ato emocional para se tornar uma declaração política. A música, que sempre serviu para unir, passa a dividir.

O Brasil já viveu momentos em que artistas foram censurados pelo Estado. Agora, o que se vê é um movimento inverso e igualmente preocupante: o artista tentando censurar o próprio público ou as plataformas que o divulgam por divergências políticas. Não é sinal de força, mas de empobrecimento do debate e de fragilidade democrática.

A situação ganha contornos ainda mais delicados quando entram em cena os contratos públicos. O cancelamento do show em São José do Egito, após a divulgação de um cachê de 500 mil reais bancado com recursos federais, reacende uma discussão necessária. Até que ponto é aceitável que artistas que atacam instituições democráticas sejam financiados com dinheiro público? Prefeituras, sobretudo em cidades pequenas, precisam lidar com demandas urgentes em saúde, educação e infraestrutura. O debate não é moral, é administrativo e político.

Zezé tentou recuar parcialmente ao pedir desculpas pelo termo utilizado contra as herdeiras do SBT, alegando sentido figurado. O pedido, no entanto, soou incompleto. Não houve reflexão pública sobre o cerne da controvérsia: o desejo de retirar do ar um produto artístico por discordância política. O silêncio sobre esse ponto fala alto.

Nada disso apaga a importância de Zezé Di Camargo para a música brasileira. Seus sucessos continuam vivos na memória afetiva de milhões. Mas talvez seja justamente essa relevância que torne sua postura ainda mais problemática. Ídolos não são apenas indivíduos; são referências simbólicas. Quando escolhem o rancor em vez do diálogo, ajudam a normalizar a intolerância.

O episódio revela menos sobre um cantor específico e mais sobre o Brasil de hoje. Um país em que o debate político se tornou tão radicalizado que já não respeita nem o território da arte. Onde até o amor, tema de um de seus maiores hits, parece ter sido substituído pelo ódio.

No fim das contas, a pergunta que fica não é se devemos ou não ouvir Zezé Di Camargo. A questão é mais ampla. Que tipo de sociedade estamos construindo quando aceitamos que a cultura seja usada como arma ideológica? A resposta dirá muito sobre o futuro da nossa convivência democrática.

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