Por: Eduardo Oliveira
Quando Valdecir Ferrari chegou a Barra do Garças, em 1972, a cidade já tinha cerca de 24 anos de história, mas ainda vivia um período de crescimento e transformação. Na bagagem, ele trazia experiência, disposição para trabalhar e uma proposta que mudaria sua vida — e que, anos depois, acabaria contribuindo também para o turismo da região.
Valdecir Ferrari já trabalhava com a Olivetti. Era mecanógrafo quando recebeu o convite para assumir a representação da marca na cidade. Veio para um desafio profissional, mas acabou encontrando muito mais do que trabalho. Encontrou um lugar para criar raízes.
- Como foi a sua chegada em Barra do Garças e o que te motivou a escolher a cidade pra viver?
“Eu já trabalhava com a Olivetti, era mecanógrafo. Em 1972 me ofereceram a representação da marca aqui em Barra do Garças. Vim pra assumir esse desafio. A cidade ainda tava em crescimento, mas vi ali uma boa oportunidade de trabalho e de vida.”
No ano seguinte, em 1973, Valdecir Ferrari fundou a firma Ferrimaq, que se tornou a concessão da Olivetti em Barra do Garças. A empresa se consolidou e, junto com ela, cresceu também o vínculo dele com a cidade e com o Vale do Araguaia.
Na mesma época em que estruturava sua vida urbana, Valdecir Ferrari decidiu investir no campo.
- O que mais pesou na sua decisão de adquirir a propriedade e como foi esse processo no começo?
“A decisão veio numa época em que era mais fácil comprar terra. Na verdade, eram duas fazendas, só terreno, sem nenhuma construção. Comecei tudo do zero, sem facilidade, mas com muita vontade de construir algo sólido e pensar no futuro.”
Com o tempo, ele tomou uma decisão estratégica: vendeu uma das propriedades para investir na outra, concentrando recursos, trabalho e atenção.
“Acabei ficando com uma delas, que é a Fazenda União, e investi tudo ali. Ela fica a cerca de 20 quilômetros de Barra do Garças e é a que tenho até hoje.”
Ao longo dos anos, a relação com a terra mudou. O que antes era apenas trabalho e produção passou a ser também convivência, observação e respeito.
- Com o passar do tempo, que tipo de relação você foi construindo com a terra, o rio e a natureza da região?
“No começo era muito trabalho, muito esforço pra estruturar tudo. Depois a gente passa a observar mais, entender o ritmo da terra, respeitar o rio e a natureza ao redor.”
A Fazenda União deixou de ser apenas um espaço produtivo. Tornou-se parte da história de vida de Valdecir Ferrari, um lugar de cuidado, silêncio e equilíbrio com o cerrado e o Rio Garças .
Foi dessa convivência com a natureza e com as pessoas da região que surgiu, de forma quase espontânea, uma atitude que hoje chama atenção no debate sobre turismo sustentável em Barra do Garças.
Valdecir Ferrari fez parte do Araguaia Convention, onde atuou como tesoureiro. Participou de palestras, workshops, viagens técnicas e diversas atividades junto ao trade turístico, especialmente com os guias canoeiros. Foi ali, ouvindo e observando, que ele percebeu uma necessidade prática.
- Em que momento surgiu a ideia de abrir a porteira da sua propriedade para a passagem dos guias canoeiros?
“Essa ideia surgiu de forma bem natural. Acompanhando o movimento do rio e conversando com os guias, fui entendendo as dificuldades do trajeto. A porteira sempre esteve ali, então abrir foi mais um gesto de bom senso do que qualquer outra coisa.”
Percebendo que a passagem pela Fazenda União poderia facilitar o trabalho dos guias e tornar a experiência dos visitantes mais segura, Valdecir Ferrari tomou uma decisão direta.
“Resolvi abrir a porteira sem cobrar nada.”
Naquele momento, não se tratava de lucro. Tratava-se de ajudar, de contribuir com algo que estava ao alcance, sem burocracia e sem exigências. Para ele, fazia sentido apoiar uma atividade que movimenta pessoas, gera experiências e valoriza o Rio Garças .
Mas Valdecir Ferrari também faz uma reflexão importante. Ele entende que o turismo precisa avançar para uma nova etapa: organização, normatização e responsabilidade.
“Quando organizar melhor e normatizar os produtos, aí sim acho justo também estar presente nos resultados econômicos dessa indústria do turismo. Porque ganhar um dinheirinho também é bom”, diz com simplicidade.
“Até pra ajudar a pagar alguns custos de manutenção.”
Não como exploração, mas como reconhecimento e equilíbrio.
Para Valdecir Ferrari, o turismo só cresce de forma saudável quando existe harmonia entre preservação ambiental, organização da atividade e valorização de quem vive e cuida do território. Sem isso, o risco é transformar um patrimônio natural em algo desgastado e sem futuro.
O exemplo da Fazenda União mostra que o turismo não se constrói apenas com grandes obras ou discursos. Muitas vezes, começa com gestos simples, decisões conscientes e pessoas dispostas a pensar no coletivo — sem deixar de enxergar a realidade.
O futuro do turismo em Barra do Garças, na visão de Valdecir Ferrari, passa por esse caminho: respeito à natureza, diálogo com a comunidade, organização dos produtos turísticos e geração de renda de forma justa. Um turismo que preserve, valorize e devolva à região aquilo que ela oferece de melhor.






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