Konrad Felipe/Jornalista – konradfelipe@gmail.com
Por anos, a Orla do Rio Garças foi mais promessa do que paisagem. Um projeto concebido para ser cartão-postal, mas que acabou virando metáfora de como obras públicas, quando mal conduzidas, podem se transformar em cicatrizes urbanas. Agora, com a assinatura da ordem de serviço para a retomada das obras da Beira-Rio, Barra do Garças volta a olhar para o rio não como um problema, mas como oportunidade.
A cena da última quarta-feira (28), no Porto do Baé, teve solenidade, discursos e até ironia política. Ao ser questionado se convidaria o ex-prefeito Beto Farias para a inauguração, o atual prefeito, Dr. Adilson Gonçalves, respondeu que “claro, pode convidar”, acompanhado de um sorriso difícil de esconder. A frase, mais do que uma provocação, sintetiza bem a história recente da obra. Todo mundo quer aparecer na foto final, mas poucos querem assumir o filme inteiro.
O projeto da Orla nasceu ainda em 2019, com discurso grandioso, vídeos institucionais e a promessa de transformar o trecho entre o Porto do Baé e a Praia da Rapadura em um dos mais belos parques lineares do Centro-Oeste. Licenças ambientais foram anunciadas, recursos federais comemorados e expectativas criadas. O problema é que, no meio do caminho, o asfalto virou lama burocrática e judicial.
A obra foi paralisada, os contratos rescindidos e, em 2024, a Polícia Federal entrou em cena com a Operação Caliandra. O nome poético escondia um enredo nada florido. Suspeitas de fraudes em licitações, empresas sem capacidade técnica, incluindo uma floricultura contratada para executar obra de engenharia, uso de empresas de fachada e movimentações financeiras incompatíveis com salários de servidores. Resultado: um projeto turístico estratégico enterrado sob papéis, investigações e desconfiança.
Coube à atual gestão lidar com o espólio desse passado. Rescindir contratos, refazer projetos, cumprir exigências ambientais e até realizar estudos arqueológicos, numa ironia quase literal de que foi preciso cavar o passado para tentar construir o futuro. Com apoio da Câmara de Vereadores, a Prefeitura garantiu a contrapartida municipal de cerca de R$ 6 milhões, via financiamento da Caixa, somados aos R$ 8 milhões de repasse federal. No total, quase R$ 14 milhões para, enfim, tirar a Orla do papel, outra vez.
O novo projeto promete pista de caminhada, ciclofaixa, quiosques, mirantes, rampas náuticas, quadra esportiva e paisagismo. Em tese, tudo o que uma cidade turística precisa para integrar lazer, esporte e contemplação. A previsão é de um ano para conclusão. Em Barra do Garças, o tempo sempre foi um personagem importante nessas histórias, então a cautela segue sendo companheira.
Mais do que uma obra urbana, a retomada da Beira-Rio dialoga diretamente com o futuro do turismo local. Barra do Garças já é reconhecida nacionalmente pelo ecoturismo, pelas águas termais, cachoeiras, trilhas e pela Serra Azul. Faltava, e ainda falta, uma área urbana estruturada que conecte a população e os visitantes ao rio, principal elemento identitário da cidade. Uma orla bem planejada não é luxo. É estratégia de desenvolvimento.
A política, claro, não fica de fora. O embate entre antigos e atuais gestores segue vivo nas redes sociais, entrevistas e declarações atravessadas. Cada lado tenta escrever sua versão da história. Mas a cidade, cansada de tapumes e promessas, quer mesmo é caminhar à beira do rio sem precisar lembrar de operações policiais, contratos suspeitos ou disputas de ego.
Se a obra será concluída antes que todos queiram aparecer na foto, só o tempo dirá. O fato é que a retomada da Orla do Rio Garças simboliza mais do que concreto e paisagismo. Representa a chance de Barra do Garças virar uma página incômoda da sua história recente e, quem sabe, transformar um passado de entraves em um futuro de turismo, convivência e orgulho coletivo.






Seja o primeiro a comentar sobre "A orla, o tempo e a política: quando o passado insiste em aparecer na foto"