No mês em que o mundo celebra a luta das mulheres, Barra do Garças propõe discutir também a responsabilidade masculina na transformação dessa realidade.
Konrad Felipe/Jornalista – konradfelipe@gmail.com
O Dia Internacional da Mulher, celebrado em 8 de março, não é uma data comercial. É um marco histórico de luta. Oficializado pela Organização das Nações Unidas na década de 1970, o dia simboliza as greves de trabalhadoras do início do século XX, que reivindicavam melhores condições de trabalho, salários dignos e direitos básicos. É uma data que celebra conquistas sociais, políticas e econômicas, mas sobretudo reforça que a desigualdade de gênero e a violência ainda são problemas estruturais.
Em Mato Grosso, essa realidade é dolorosamente concreta. O estado frequentemente figura entre os primeiros do país nas taxas proporcionais de feminicídio. São números que constrangem e exigem mais do que homenagens protocolares. Exigem ação.
Talvez seja hora de fazer uma pergunta incômoda: por que, mesmo com leis mais duras, campanhas permanentes e estruturas especializadas, os índices continuam altos?
A resposta pode estar na raiz cultural do problema.
Nesta semana, em Barra do Garças, o projeto “Homens que Cuidam” apresentou uma proposta que dialoga diretamente com esse desafio. Ao invés de tratar a violência doméstica apenas sob a ótica da vítima, ainda que essa proteção seja indispensável, a iniciativa propõe incluir os homens no centro da conversa.
Não para relativizar a violência, mas para enfrentar a cultura que a sustenta.
O Judiciário local foi claro ao afirmar que o machismo não prejudica apenas mulheres. Homens vivem menos. Homens bebem mais. Homens morrem mais no trânsito. Homens lideram estatísticas de homicídio e compõem a esmagadora maioria da população carcerária.
Existe uma masculinidade ensinada que cobra um preço alto demais.
Quando campanhas pedem que o homem mude por ela, apelam à empatia. Mas a transformação cultural pode exigir algo mais direto: mostrar que ele também perde quando reproduz padrões violentos.
A violência doméstica não começa com agressão física. Começa na naturalização do controle, na ideia de posse, na crença de superioridade, no silêncio emocional imposto aos meninos desde cedo.
É por isso que a escola passa a ser um espaço estratégico.
Falar com adolescentes sobre respeito, autocontrole, responsabilidade afetiva e igualdade não é ideologia. É política pública de prevenção. A legislação brasileira já determina que a prevenção à violência contra a mulher faça parte dos currículos escolares. Mas cumprir a norma não basta se o debate não for profundo.
No mês das mulheres, flores são entregues. Homenagens são feitas. Discursos emocionados são proferidos. Tudo isso é válido. Mas talvez o gesto mais significativo seja outro: reconhecer que a luta das mulheres também exige transformação masculina.
O 8 de março não é apenas celebração. É memória de resistência. É símbolo das trabalhadoras que enfrentaram repressão para reivindicar dignidade. É lembrete de que direitos foram conquistados com enfrentamento e podem retroceder se a cultura não evoluir.
Se Mato Grosso deseja deixar de figurar nas estatísticas mais duras do país, precisará ir além das campanhas de ocasião.
Precisará educar meninos para que não se tornem agressores.
Precisará ensinar que masculinidade não é dominação.
Precisará mostrar que cuidar é mais forte que controlar.
Barra do Garças pode estar iniciando uma conversa que o Brasil inteiro ainda evita aprofundar: a de que enfrentar o machismo é também salvar homens de um modelo que os adoece e os aprisiona.
No fim das contas, o Dia Internacional da Mulher não é apenas sobre elas.
É sobre o tipo de sociedade que todos nós decidimos construir.
E essa construção começa quando os homens entram, de fato, na conversa.






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