REVISTA AZUL MAGAZINE DESTACA BARRA DO GARÇAS – PARAÍSO PERDIDO

Serra do Roncador

A SERRA DO RONCADOR, NO MATO GROSSO, GUARDA MISTÉRIOS EM SUA EXUBERANTE E QUASE INTOCADA NATUREZA, ONDE SE DESTACAM AS FORMAÇÕES ROCHOSAS E AS CACHOEIRAS CRISTALINAS

 POR MÔNICA REOLOM |  FOTOS ANDRÉ DIB
 
 capitular-e-desenhadom janeiro de 1925 o explorador britânico Percy Fawcett partiu com o filho em mais uma de suas expedições em busca da suposta Cidade Z, um lugar repleto de tesouros e templos que, em suas teorias, existia em algum ponto da selva amazônica. Com a promessa de fazer “a maior descoberta arqueológica do século 20”, os dois montaram uma equipe em Cuiabá, no Mato Grosso, e seguiram a cavalo em direção ao Alto Xingu. Cinco meses depois, desapareceram na região onde se inicia a Serra do Roncador — uma imensa cordilheira que divide as águas dos rios Araguaia e Xingu. Eles nunca mais foram encontrados.

Uns dizem que Fawcett encontrou a Cidade Z e por lá está até hoje. Outros, que foi atacado pelos índios ou que sucumbiu à fome ou a alguma doença. O fato é que o episódio serviu para transformar a Serra do Roncador em um destino místico, rodeado de mistérios a serem revelados, em suas enormes extensões de mata virgem. Cachoeiras cristalinas, formações rochosas inacreditáveis e uma vegetação deslumbrante esperam os visitantes interessados nesse “Brasil profundo”.

A porta de entrada para essa aventura é a pequena cidade de Barra do Garças, na divisa entre Mato Grosso e Goiás. Dali partem as caminhonetes 4×4 — as únicas que aguentam os esburacados trechos de estrada de terra — que fazem tours pela região. O distrito do Vale dos Sonhos, a 65km do centro do município, é a primeira parada do passeio, de onde se tem uma visão privilegiada dos imponentes paredões rochosos da Serra do Roncador, capazes de alcançar 700 metros de altura em alguns pontos.

Constituídos de arenito e moldados pelo vento ao longo das eras, eles apresentam uma belíssima coloração vermelha em degradê. A estrada que passa ao largo dessas montanhas é constituída por uma vegetação transitória entre floresta amazônica e cerrado, uma mistura curiosa de plantas rasteiras dividindo espaço com exuberantes árvores de folhas grandes.

 Em meio a essa fusão, animais típicos do Centro-Oeste aparecem a todo momento, para a alegria dos visitantes. Tamanduás, emas, corujas, araras e, com sorte, jaguatiricas podem ser avistados e fotografados no percurso. E, como se o cenário não quisesse nos deixar esquecer que o Mato Grosso é o maior produtor de soja do Brasil, extensos campos cultivados se abrem ao longo da estrada, pontuados aqui e ali por cabeças de gado — o estado também detém o título de maior rebanho do País.

Para apreciar a maravilhosa combinação entre floresta e cerrado, nenhum lugar é mais bem posicionado que o Arco de Pedra, um ajuntamento rochoso acessível por uma trilha — leve — de apenas 300 metros. Nesse ponto, no início da subida da serra, avista-se toda a verde planície do Araguaia, a perder-se no horizonte. Por causa do barulho do vento (o que deu o nome de Roncador à serra) e dos desenhos considerados sagrados nas rochas (como o Dedo de Deus), dizem que esse é um dos locais em que mais se concentram energias místicas. Verdade ou não, o nascer do sol assistido ali é uma experiência intensa e inesquecível.

A geografia acidentada da região também favoreceu a formação de muitas cachoeiras. Acessado apenas por carros tracionados, o Complexo do Bateia, a 70 quilômetros de Barra de Garças, é o paraíso das quedas-d’água. Área onde antigamente havia intensa atividade de garimpo — daí o nome do complexo, referente à gamela para escoar ouro e diamantes —, o Bateia reúne saltos pequenos, médios e descomunais de águas translúcidas. Há poços profundos que são usados  como piscinas naturais com escorregadores sobre as pedras e até cascatas que funcionam como hidromassagens. 

Perde-se um dia inteiro passando de uma corredeira a outra, separadas por trilhas de intensidade média.

Dedo de Deus avistado em trilha na subida da serra

Uma das cachoeiras do Complexo do Bateia

O colhereiro

 Por isso prepare as pernas para subidas e descidas íngremes, sempre recompensadas por um belo mergulho. O Caldeirão das Bruxas, a Cachoeira dos Duendes e o Poço Esmeralda são paradas imperdíveis para um banho tranquilo e revigorante.

Outras quedas que valem a visita ficam no Assentamento Serra Verde, a 55km de Barra do Garças. A Cachoeira Cristal tem cascatas que terminam em piscinas com peixes, onde se pode passar uma tarde inteira nadando ou flutuando. Já a Cachoeira São Francisco, acessada a partir de uma trilha difícil de 1,5km, é a mais impressionante. A força com que a água atinge as pedras lá embaixo chega a arrepiar. Também é possível observá-la de um ângulo surpreendente: uma passagem leva a uma gruta escondida atrás da queda-d’água.

De volta à Barra do Garças, vale dar uma passada no discoporto, um estacionamento para Objetos Voadores Não Identificados (Ovnis). Situado dentro do Parque Estadual Serra Azul, a inusitada pista de pouso, que tem uma maquete em tamanho real de um disco voador, virou um ponto turístico tanto por sua excentricidade como pelas histórias dos moradores, que juram já ter visto objetos voadores e luzes suspeitas no céu da cidade mato-grossense. Não cabe duvidar, no entanto, dessa crença popular nascida na região onde o explorador Fawcett desapareceu há mais de 90 anos — imagine encontrar o portal para a Cidade Z enquanto estiver lá e revelar esse mistério ao mundo?

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A Cachoeira São Francisco, cuja força das águas impressiona

 

Acima, o Rio Araguaia com praticantes de esportes aquáticos; abaixo, o Parque das Águas Quentes

 DIVERSÃO HÍDRICA

 ABASTECIDAS POR NASCENTES DE ÁGUAS TERMAIS E À BEIRA DO RIO ARAGUAIA, AS CIDADES NA DIVISA ENTRE MATO GROSSO E GOIÁS REÚNEM ATRAÇÕES AQUÁTICAS PARA TODA A FAMÍLIA

 Além da rica natureza de sua área rural, nos arredores da Serra do Roncador, a mato-grossense Barra do Garças ainda guarda algumas boas atrações em seu perímetro urbano. Reconhecido como local com grande potencial hídrico, a cidade oferece a crianças e adultos o delicioso Parque das Águas Quentes, que concentra dezenas de piscinas abastecidas diariamente por nascentes de águas termais da região. Em meio às cascatas e aos toboáguas, foram mantidas por ali as árvores nativas do Cerrado, como o jatobá, que se integram perfeitamente à paisagem.

Embora Barra não tenha litoral, basta atravessar a ponte para as vizinhas Pontal do Araguaia e Aragarças, esta já em Goiás, para curtir as praias de rio que surgem em pleno inverno brasileiro. Por causa da estiagem dessa época do ano, o Rio Araguaia desce e revela pequenos trechos de areia que atraem turistas de todo o Centro-Oeste, especialmente em julho. 

 Ali é possível praticar, durante o período, atividades esportivas, como stand up paddle, jet ski e pesca.

Em Aragarças fica também o Museu da Casa de Pedras, de Dona Zélia dos Santos Diniz, professora de português aposentada que reuniu em sua casa preciosidades como fotografias e fitas cassete que registram acontecimentos da década de 40. Foi nesse período que o então presidente Getúlio Vargas deu início à Expedição Roncador-Xingu, cujo objetivo era desbravar e colonizar o interior do Brasil, e que teve seu ponto de partida na região onde hoje fica a divisa de Mato Grosso e Goiás.

De volta a Barra do Garças, na parte mais antiga da cidade, vale fazer uma parada na Praça da Matriz de Santo Antônio. Próximo à beira do Rio Araguaia, o local marca o ponto em que começaram a surgir as primeiras casas do vilarejo, no início do século, em razão do garimpo de ouro e diamantes. No centro da praça fica o símbolo do município: uma estátua do britânico Percy Fawcett, o desbravador desaparecido em 1925 em busca de uma cidade secreta. “Uma homenagem à coragem e ao pioneirismo deste oficial, que partiu daqui para uma viagem sem volta”, diz a placa.

 
 

Veículo com tração nas quatro rodas a caminho do Complexo do Bateia

Serra do Roncador – Edição 48

 

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