A eleição polarizada, a terceira via e os partidos menores

Faltando menos de quatro meses para as eleições, nas quais serão escolhidos o presidente da República, governadores dos Estados e do Distrito Federal, senadores, deputados federais e estaduais, o Brasil presencia, mais uma vez, o fenômeno da polarização política. Candidatos e militantes de esquerda e direita se enfrentam como se o objetivo fosse eliminar o adversário, e não apresentar propostas concretas para a administração do país.

Esse cenário tem levado a interpretações equivocadas. Quem não vota em Lula é imediatamente classificado como bolsonarista; quem rejeita Bolsonaro passa a ser tratado como lulista ou petista. Essa inaceitável lógica bipolar faz com que parte da militância julgue as pessoas pela preferência pessoal, e não pela essência dos interesses dos eleitores. Enquanto os extremos se fortalecem, a faixa de centro, embora ainda não tenha conseguido vencer eleições presidenciais recentes, permanece significativa, especialmente no Congresso Nacional, onde seus representantes negociam votos e influenciam diretamente as decisões parlamentares.

O grande problema é que esse estado de coisas pode beneficiar os políticos profissionais, mas em nada favorece o eleitor, que deveria ser o principal destinatário das eleições. Por isso, o eleitor terá que escolher seu candidato com a devida responsabilidade, sem se deixar envolver por discursos fáceis, apelos populistas, promessas vazias ou paixões partidárias. O voto não pode ser conduzido pelo ódio, pela rejeição pessoal ou pelo fanatismo ideológico, mas pela análise consciente dos reais objetivos de cada candidatura e da capacidade efetiva de cada candidato em representar os interesses da população.

O debate público precisa deixar de lado a simples disputa de nomes e paixões partidárias para se concentrar em projetos, objetivos e soluções reais. O programa dos candidatos não pode ser a polarização, mas sim a apresentação de propostas capazes de atender aos anseios da população, permitindo que o Brasil caminhe rumo ao desenvolvimento, ao patamar de país desenvolvido e, acima de tudo, mais humano.

Felizmente, diferentemente dos pleitos anteriores, nos quais a disputa ficou praticamente restrita ao embate entre Lula e Bolsonaro, surgem agora nomes que tentam ocupar o espaço da chamada terceira via. Entre eles aparecem Ronaldo Caiado, Romeu Zema e outras figuras que, até pouco tempo atrás, poucos imaginavam como possíveis pretendentes à cadeira presidencial. Também há lideranças de partidos menores, muitas vezes sem possibilidade concreta de vitória, mas que buscam marcar posição no cenário nacional.

O certo é que, ao contrário das eleições anteriores, em que dois polos dominaram quase completamente o debate, desta vez poderá haver três ou até quatro candidaturas com alguma relevância política. Isso pode permitir ao eleitor analisar programas, propostas e compromissos, e não apenas votar no nome do pretendente ou contra determinado adversário. A pluralidade de candidaturas, quando acompanhada de propostas sérias, pode ser positiva para a democracia, pois amplia o debate e oferece ao cidadão mais elementos para decidir.

A próxima eleição brasileira também ocorrerá em um contexto internacional delicado. Diversos países da América Latina têm vivido mudanças políticas profundas, muitas delas marcadas pela substituição de governos de esquerda por lideranças de direita. O caso da Argentina, com Javier Milei, é um exemplo importante dessa nova configuração regional, especialmente pela proximidade política com Donald Trump.

Lula, por sua vez, deverá enfrentar forte oposição externa e interna. É possível que Trump manifeste preferência por candidatos alinhados ao campo conservador brasileiro, inclusive Jair Bolsonaro ou algum nome apoiado por ele, caso Bolsonaro não possa disputar. Além disso, permanecem temas sensíveis na relação entre Brasil e Estados Unidos, como o combate ao narcotráfico, às facções criminosas e eventuais divergências comerciais e diplomáticas.

O que o povo brasileiro espera é que os governantes mantenham equilíbrio, responsabilidade e respeito à soberania nacional. Um confronto entre Estados Unidos e Brasil, ainda que apenas político ou diplomático, seria ruim para todos. Os Estados Unidos são a maior potência mundial; o Brasil, por sua vez, é o maior país da América Latina e tem papel estratégico no continente.

Na Venezuela, a crise política e institucional deixou marcas profundas. Na Colômbia, no Peru e em outros países latino-americanos, a disputa entre projetos de esquerda e direita também revela sociedades divididas, cansadas de instabilidade e carentes de soluções concretas. O continente vive um momento de tensão, no qual a democracia precisa ser preservada com prudência e respeito à vontade popular.

Nós, latino-americanos, esperamos que o governo norte-americano tenha equilíbrio e condições de auxiliar o continente quando necessário, mas sem recorrer à imposição, à ameaça ou à força militar. Qualquer cooperação deve nascer do consenso entre os países envolvidos, jamais da submissão de uma nação por outra.

Que as eleições brasileiras de outubro estejam entre as mais representativas das últimas décadas. Que o eleitor possa escolher com liberdade, consciência e responsabilidade, sem se deixar manipular por populismos, radicalismos ou falsas soluções. O voto deve ser instrumento de construção nacional, e não de vingança política. Que cada brasileiro reflita sobre qual candidato realmente possui condições de representá-lo, defender seus interesses e conduzir o país com seriedade.

E que o próximo governo, seja qual for o vencedor, tenha compromisso verdadeiro com a solução dos grandes problemas nacionais. Só assim o Brasil poderá marchar para o futuro de desenvolvimento, justiça social e dignidade com o qual sua população sempre sonhou.

Tenente Dirceu Cardoso Gonçalves – dirigente da ASPOMIL (Associação de Assist. Social dos Policiais Militares de São Paulo)

  

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