Fim da guerra normaliza fornecimento do petróleo

Na sexta-feira (19), o planeta deve começar a retomar a normalidade energética. O acordo de paz assinado no último fim de semana entre Estados Unidos e Irã põe fim à guerra entre os dois países e, mais importante, possibilita a reabertura da passagem de navios petroleiros pelo Estreito de Ormuz, bloqueado há dois meses desde a eclosão do conflito bélico. Por ali trafegam diariamente cerca de 20 milhões de barris de petróleo, volume que representa aproximadamente 20% do consumo mundial. A ausência dessa commodity no mercado provocou forte alta nos preços dos derivados, especialmente diesel, gasolina e querosene de aviação. O reajuste nas tarifas de transporte, no custo das mercadorias e na locomoção pessoal foi uma das consequências mais sentidas.

O bloqueio de Ormuz, promovido pelo Irã, levou os países consumidores do petróleo fornecido pelo Golfo Pérsico a recorrer temporariamente às reservas existentes em seus parques de refino e às cargas já embarcadas antes do fechamento da rota. Muitas embarcações que haviam ultrapassado o Estreito ficaram liberadas para chegar ao destino, mas outras permaneceram impedidas de seguir viagem, aguardando uma solução diplomática para o conflito. Agora, com a reabertura do tráfego marítimo, os compradores poderão retornar gradualmente às fontes fornecedoras, enquanto os cargueiros retidos iniciarão suas viagens, permitindo a recomposição do abastecimento internacional.

É justamente nesse ponto que o fim da guerra poderá reequacionar os problemas provocados pelo conflito e devolver algum equilíbrio à debilitada economia mundial, que se tornou refém desse episódio. A normalização do fluxo de petróleo tende a reduzir a pressão sobre os combustíveis, diminuir custos logísticos, aliviar cadeias produtivas e conter parte da inflação global. Como o petróleo está presente direta ou indiretamente em quase todos os setores — transporte, indústria, alimentos, aviação e comércio internacional, a retomada de Ormuz representa mais do que a solução de uma crise energética: significa a possibilidade de recompor preços, restaurar confiança nos mercados e evitar uma desaceleração econômica ainda mais severa.

O barril de petróleo, comercializado entre 70 e 80 dólares em tempos de paz, chegou a ser cotado a 140 dólares durante o auge da crise. No dia em que o armistício foi anunciado, recuou de 110 para 83 dólares, devendo manter tendência de queda caso não ocorra novo incidente militar ou diplomático. A redução das cotações, no entanto, não será sentida de forma imediata pelo consumidor final. Há estoques comprados a preços elevados, contratos de transporte em vigor e custos represados ao longo da cadeia. Ainda assim, a expectativa é de que, nas próximas semanas, combustíveis e fretes iniciem movimento de acomodação.

O acordo de paz entre Estados Unidos e Irã, mediado pelo Paquistão, aliado dos dois países, prevê não apenas a cessação das hostilidades, mas também a abertura de negociações, ao longo dos próximos 60 dias, sobre os limites do programa nuclear iraniano. Essa atividade foi uma das motivações centrais do conflito. De um lado, os Estados Unidos demonstravam cautela diante da possibilidade de o Irã manipular urânio em níveis elevados e adquirir condições de produzir armamento nuclear. De outro, o governo iraniano sempre sustentou que o uso do material radioativo tem finalidades pacíficas.

Os combustíveis sofreram alta brutal na Ásia e elevação moderada no restante do mundo, inclusive nos Estados Unidos, adversário direto do Irã e também grande consumidor de energia. O Brasil, atingido pela alta das cotações internacionais, elevou os preços dos combustíveis, mas vem exercendo controle para evitar que os reajustes ultrapassem percentuais considerados razoáveis diante da elevação dos custos de fornecimento. Espera-se, nas próximas semanas, a volta gradual aos valores pré-guerra. Como vantagem adicional, tanto para o Brasil quanto para os demais consumidores, afasta-se a possibilidade de uma crise de abastecimento que, caso as escaramuças continuassem, logo seria sentida de forma mais grave.

O mundo é refém do combustível do Golfo Pérsico pelo menos desde 1973, quando ocorreu a primeira grande crise de abastecimento. Reunidos na OPEP, os países produtores da região elevaram os preços e impuseram dificuldades a muitos de seus clientes, afetando a circulação de frotas, o transporte de mercadorias e o funcionamento das economias dependentes do petróleo importado. Desde então, qualquer instabilidade no Oriente Médio tem reflexos imediatos nos mercados internacionais.

O Estreito de Ormuz tem 167 quilômetros de extensão e largura variável entre 39 e 97 quilômetros. Como suas margens envolvem águas territoriais do Irã e de Omã, a faixa de livre utilização é bem mais estreita. O canal liga o Golfo Pérsico ao Golfo de Omã, ao Mar da Arábia e ao Oceano Índico. Por ali passam diariamente dezenas de navios de grande porte, em sua maioria petroleiros, embora o volume de tráfego varie conforme as condições políticas, comerciais e militares. Com a solução do conflito, espera-se que os produtos que subiram de preço por causa da guerra retornem, o mais rapidamente possível, aos níveis anteriores à crise.

Tenente Dirceu Cardoso Gonçalves – dirigente da ASPOMIL (Associação de Assist. Social dos Policiais Militares de São Paulo)

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