Fuga de Carla Zambelli abala cenário político e acende alerta no STF

Foto: Reprodução

Konrad Felipe/Jornalista – konradfelipe@gmail.com

A deputada federal Carla Zambelli (PL-SP), condenada pelo Supremo Tribunal Federal a 10 anos de prisão por envolvimento no caso do hacker Walter Delgatti, deixou o Brasil de forma clandestina e reacendeu um debate urgente: até onde vai a rede de apoio internacional dos aliados do ex-presidente Jair Bolsonaro?

Segundo apuração confirmada por fontes da PGR e da própria defesa, Zambelli atravessou a fronteira terrestre com a Argentina e, de lá, embarcou para os Estados Unidos. O destino final é a Itália, onde a ex-parlamentar planeja residir com base em sua cidadania italiana — o que, segundo ela, a colocaria fora do alcance da Justiça brasileira.

“Eles vão tentar me prender na Itália, mas lá sou cidadã italiana, intocável”, declarou Zambelli em vídeo publicado nas redes sociais, já fora do país.

Efeitos imediatos da fuga

A fuga de Zambelli gerou reações em cadeia. Seu advogado renunciou à defesa, alegando “foro íntimo” e afirmando que foi apenas comunicado da viagem para tratamento médico. A Procuradoria-Geral da República, por sua vez, solicitou à Justiça a prisão preventiva da ex-deputada e sua inclusão na lista de foragidos da Interpol.

A parlamentar se defende, afirmando que buscava retomar um tratamento de saúde iniciado anteriormente no exterior. Contudo, em seus próprios vídeos, também deixou claro que pretende atuar como militante internacional, denunciando o que chama de “ditadura judicial brasileira” em fóruns e congressos europeus.

Coronel Tadeu assume o cargo

Com o afastamento de Zambelli, seu suplente, o polêmico Coronel Tadeu (PL-SP), reassumiu uma cadeira na Câmara dos Deputados. Conhecido por seu comportamento combativo, Tadeu já protagonizou cenas controversas no Congresso, como o episódio em que destruiu um cartaz alusivo ao Dia da Consciência Negra, em 2019.

A chegada de Tadeu promete tensão nos próximos debates legislativos. Ele tem forte ligação com pautas bolsonaristas e já declarou que pretende “resgatar os valores das Forças Armadas dentro da política nacional”.

Zambelli e o “governo no exílio”?

Zambelli não é a primeira bolsonarista a buscar abrigo fora do país. A diferença é que sua fuga ocorre após condenação concreta. A nova movimentação levanta preocupações sobre a formação de uma espécie de “governo bolsonarista no exílio”, espalhado entre Itália, Argentina e Estados Unidos — onde já estão figuras como Alan dos Santos, Paulo Figueiredo e Eduardo Bolsonaro (em licença do mandato).

“O Brasil vive hoje um tempo de censura. Eu vou continuar lutando pela liberdade agora na Europa. A América está bem representada. Chegou a hora de eu ampliar essa frente”, disse Zambelli.

STF sob pressão: passaporte e precauções futuras

A fuga de Zambelli escancarou um erro de avaliação do Supremo Tribunal Federal: a parlamentar ainda detinha seu passaporte mesmo após a condenação, o que facilitou sua saída.

Para o professor Gustavo Sampaio, constitucionalista da UFF, o episódio deve servir de alerta.

“O STF vinha sendo cuidadoso para não parecer autoritário, mas agora fica evidente que medidas como apreensão de passaporte e prisões preventivas precisam ser aplicadas com mais rigor.”

A expectativa é que o tribunal intensifique a vigilância sobre outros réus e investigados nos processos do 8 de janeiro. A possibilidade de novas fugas preocupa, especialmente no caso de figuras mais próximas de Bolsonaro, como Anderson Torres, Silvinei Vasques e o próprio ex-presidente, que enfrenta múltiplas frentes de investigação.

Bolsonaro e o risco do efeito dominó

Nos bastidores, aliados de Jair Bolsonaro já admitem preocupação com os efeitos da fuga de Zambelli. O ex-presidente, que no passado culpou a deputada pela derrota eleitoral de 2022, agora teme ser novamente atingido por suas atitudes.

“Zambelli virou um risco político e jurídico. Ela pode ser usada como justificativa para medidas mais duras contra todo o grupo”, comentou um assessor bolsonarista sob anonimato.

A tese de uma militância organizada no exterior pode servir de argumento para o Supremo tomar decisões mais severas contra réus em liberdade no Brasil. A ideia de um “governo bolsonarista ultramarino”, como apontam analistas, já não parece mais uma distopia.

Conclusão: mais que um caso isolado

A fuga de Carla Zambelli é mais que uma manobra individual de desespero. É um capítulo que expõe falhas institucionais, riscos à democracia e a articulação de forças que, mesmo fora do território nacional, seguem influenciando o debate político brasileiro. Se nada for feito, novos nomes podem seguir o mesmo caminho — e, quem sabe, fundar a “República de Ultramar Bolsonarista”.

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