Quando a indignação atravessa a fronteira da razão

Foto: Reprodução

Konrad Felipe/ Jornalista – konradfelipe@gmail.com

Há dias em que ser jornalista é também um exercício doloroso de olhar no espelho. O episódio ocorrido na Câmara Municipal de Sinop, que ganhou as manchetes nacionais, é um desses dias em que a profissão inteira sente o peso de um ato individual. O jornalista Daniel Trindade, ao agredir fisicamente o vereador Marcos Vinícius Borges, ultrapassou uma linha que jamais poderia ser cruzada por quem tem o dever de defender a palavra — e nunca a violência.

A imprensa vive de apuração, confronto de ideias e, sobretudo, de civilidade. Quando um profissional da comunicação perde o controle e transforma a indignação em agressão, ele não apenas fere outro ser humano — ele fere também a credibilidade de todos nós que empunhamos o microfone, a caneta e a câmera em nome do interesse público.

É preciso lamentar profundamente o ocorrido. Nenhuma provocação, por mais dura que seja, justifica um ataque físico dentro de uma Casa de Leis — um espaço que deveria ser o templo do diálogo democrático. A política, por sua natureza, é o terreno do conflito de ideias, e o jornalismo existe justamente para iluminar esses embates, não para inflamar os ânimos.

O Sindicato dos Jornalistas de Mato Grosso agiu corretamente ao repudiar o ato e instaurar um processo ético. Não se trata apenas de um gesto institucional, mas de uma necessidade moral: reafirmar que o jornalismo é o antônimo da violência. Somos, ou deveríamos ser, o escudo da sociedade contra os abusos do poder, não a faísca que acende o caos.

Daniel pediu desculpas, e é bom que o tenha feito. Mas as desculpas não apagam o impacto que a imagem causou: o jornalista, com equipamento de trabalho na mão, transformando-o em instrumento de agressão. É uma cena simbólica e dolorosa. Cada vez que um de nós se deixa dominar pela raiva, a credibilidade do jornalismo perde terreno para a intolerância e para o descrédito.

A profissão que escolhemos exige sangue frio, serenidade e compromisso com a verdade. E a verdade, às vezes, é amarga: nenhum repórter está acima dos princípios éticos que regem o ofício. É nesses momentos que se mede a grandeza de uma categoria — não pelo erro cometido, mas pela coragem de reconhecê-lo e de reafirmar o caminho certo.

Que esse episódio sirva como alerta e reflexão. A democracia brasileira, já tão tensionada, não suporta mais gestos de ódio — nem nas tribunas, nem nas redações. O jornalismo só faz sentido quando é ponte, nunca quando é porrete.

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