Entre bilhões, silêncio e tensão institucional: a oitiva que expôs Mato Grosso no Senado

Konrad Felipe/ Jornalista – konradfelipe@gmail.com

A manhã de quarta-feira (25/3), em Brasília, consolidou um dos momentos mais explosivos da CPI do Crime Organizado. A oitiva do ex-governador de Mato Grosso, Pedro Taques, foi além de um simples depoimento técnico e mergulhou em denúncias que conectam sistema financeiro, gestão pública e suspeitas de atuação do crime organizado.

O que começou como uma investigação sobre fraudes e lavagem de dinheiro ganhou contornos ainda mais graves ao envolver cifras bilionárias, fundos de investimento e até a principal rodovia do estado.

Consignados, dívida e colapso social

Taques reafirmou à comissão que cerca de 106 mil servidores públicos de Mato Grosso foram impactados por operações de crédito consignado, muitas delas, segundo ele, realizadas por instituições sem autorização do Banco Central, ligadas ao Banco Master.

O ex-governador apontou que o aumento da margem consignável, chegando a até 60% da renda, abriu caminho para um modelo predatório de crédito, com juros elevados e contratos considerados irregulares. O resultado, segundo ele, é um quadro alarmante de superendividamento, com reflexos diretos na saúde mental e na dignidade dos servidores.

O acordo da Oi entra no centro do debate

Um dos pontos mais sensíveis da oitiva envolve o acordo de R$ 308 milhões firmado entre o Governo de Mato Grosso e a operadora Oi. A legalidade do contrato já é alvo de disputa judicial e ganhou um novo capítulo nesta semana.

O juiz Bruno D’Oliveira Marques, da Vara Especializada em Ações Coletivas de Cuiabá, determinou prazo de 72 horas para que o Ministério Público Estadual explique a atuação do subprocurador-geral de Justiça, Marcelo Ferra, no processo.

A decisão foi tomada após questionamento de Taques, que alegou violação ao princípio do promotor natural. O magistrado classificou a denúncia como “relevante” e destacou a necessidade de esclarecimentos antes de qualquer decisão sobre o andamento da ação.

O parecer de Ferra, apresentado dias antes, havia pedido o indeferimento da ação popular e das medidas liminares, posicionamento que agora entra no centro da controvérsia jurídica.

Fundos, bilhões e suspeitas de lavagem

Durante a oitiva, Taques detalhou o que chamou de engenharia financeira complexa, envolvendo fundos ligados ao Banco Master. Segundo ele, os recursos do acordo com a Oi teriam sido pulverizados por meio de uma cadeia de fundos até alcançar empresas com vínculos políticos no estado.

A suspeita levantada é de uso desse modelo para ocultação de origem de recursos, prática típica de lavagem de dinheiro.

O relator da CPI, senador Alessandro Vieira, reforçou que o foco da comissão é justamente identificar esse tipo de estrutura, que pode ter atuação em mais de 20 estados brasileiros.

BR-163, PCC e a tese da captura

Outro ponto que elevou o tom da sessão foi a declaração de que a BR-163 teria sido capturada pelo sistema financeiro ligado ao Banco Master.

Taques afirmou que o fundo Reag, citado em investigações por ligação com o Primeiro Comando da Capital, teria influência na concessionária Nova Rota do Oeste. Segundo ele, o empresário Luiz Carlos Moreira Lima, ligado à gestora do fundo, passou a integrar o conselho de administração após um aporte de R$ 447 milhões oriundos da MT Par.

“Como pode o dono do fundo fazer parte do conselho após receber recursos públicos?”, questionou.
O ex-governador também citou um financiamento de R$ 5,5 bilhões do BNDES para a concessionária, levantando dúvidas sobre a governança desses recursos e o risco de captura institucional.

Silêncio local e ruído político

Se em Brasília o tema ganhou repercussão, em Mato Grosso o cenário foi outro. A oitiva praticamente não foi repercutida por veículos de imprensa locais que recebem publicidade do governo estadual.
Nos bastidores, circula a informação de que houve orientação da Secretaria de Comunicação para evitar a cobertura. Paralelamente, a pasta teria promovido um almoço com jornalistas alinhados às pautas institucionais, movimento que levanta questionamentos sobre independência editorial e transparência.

O que está em jogo

A CPI escancarou um possível modelo nacional de atuação, uso de crédito consignado para endividamento em massa, aliado a estruturas financeiras complexas para movimentação de grandes volumes de dinheiro.

Ao mesmo tempo, evidenciou tensões institucionais entre Judiciário, Ministério Público e política, além de um ambiente onde bilhões circulam com pouca compreensão pública.

No fim, a pergunta que permanece é simples e inquietante: quem controla esse sistema e quem está sendo protegido por ele?

A CPI continua. E Mato Grosso segue no epicentro de uma investigação que pode redesenhar os limites entre poder público, mercado financeiro e crime organizado no Brasil.

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