Konrad Felipe/Jornalista – konradfelipe@gmail.com
A política mato-grossense vive um daqueles momentos em que a força institucional nem sempre se converte em entusiasmo popular. E o atual governador de Otaviano Pivetta parece experimentar exatamente esse cenário.
Durante anos, Pivetta ocupou uma posição estratégica, mas confortável: a de vice-governador de Mauro Mendes. Era o homem da confiança, o parceiro técnico, o articulador discreto. Agora, com Mauro deixando o Palácio Paiaguás para disputar o Senado, o vice assumiu a cadeira principal e, junto dela, herdou também o peso político de liderar sozinho.
Mas governar não é apenas administrar números, inaugurar obras ou anunciar investimentos. Política também é gesto, presença, simbolismo e, principalmente, conexão.
Lembro-me de uma entrevista que fiz com Pivetta nos tempos em que atuava no rádio. Naquela ocasião, ainda como vice-governador, perguntei diretamente se ele seria candidato ao Senado. Ele segurou meu crachá, conferiu quem eu era e, em tom reservado, respondeu em off que sim, seria candidato. O cenário mudou, a candidatura não aconteceu, e a política seguiu outro rumo. O episódio, porém, mostrava um Pivetta cauteloso, estratégico e calculista.
Hoje, sentado na principal cadeira do Estado, o governador enfrenta um desafio diferente: transformar estrutura de poder em empolgação eleitoral.
As recentes pesquisas, que o colocam atrás de nomes como Wellington Fagundes e Jayme Campos, acenderam o alerta dentro do Republicanos. O partido reagiu judicialmente, questionando a metodologia do levantamento e apontando possíveis distorções estatísticas e declarações consideradas parciais por parte do instituto responsável.
No campo jurídico, é um movimento previsível. Nenhum grupo político aceita passivamente uma pesquisa negativa em ano pré-eleitoral. Porém, fora dos tribunais, existe uma realidade que não pode ser ignorada: a temperatura política das ruas e das bases.
E foi justamente em Barra do Garças que um dos episódios mais simbólicos dessa dificuldade de conexão aconteceu.
A visita recente de Pivetta ao município deixou uma ferida política aberta na relação entre o governo estadual e a Câmara Municipal. Onze vereadores aguardavam uma reunião institucional anunciada previamente. O encontro simplesmente não ocorreu. Sem explicações imediatas, parlamentares e imprensa ficaram esperando por cerca de duas horas até abandonarem o plenário em sinal de protesto.
Na política, detalhes se transformam em narrativas. E narrativas moldam eleições.
O episódio foi interpretado por muitos vereadores como desprestígio institucional. Não por acaso, o tom subiu rapidamente. O vereador Adilson Tavares chegou a afirmar que “Pivetta está morto para nós”, escancarando o desgaste criado após a agenda frustrada.
Mais do que uma simples falha de organização, o caso revelou algo maior: a dificuldade do governador em consolidar alianças emocionais e políticas fora da estrutura administrativa do Estado.
É verdade que a visita também trouxe anúncios importantes, como investimentos na segurança pública, a inauguração do novo presídio e recursos para a saúde municipal. Mas, muitas vezes, na política, a fotografia institucional perde espaço para o sentimento político deixado nos bastidores.
E é justamente aí que mora o principal desafio de Pivetta.
Ele assumiu o governo carregando a força da máquina estadual, a herança administrativa de Mauro Mendes e o apoio de setores econômicos importantes. Mas eleição majoritária exige algo além da eficiência técnica: exige capilaridade política, carisma regional e habilidade no trato com lideranças locais.
Os vereadores, especialmente no interior, continuam sendo peças fundamentais nesse tabuleiro. São eles que escutam o eleitor diariamente, frequentam bairros, velórios, igrejas, feiras e comunidades. Ignorar esse capital político pode custar caro em uma disputa estadual.
Enquanto nomes experientes como Wellington Fagundes e Jayme Campos trabalham há décadas suas bases eleitorais, Pivetta ainda parece buscar uma identidade própria como candidato ao governo, não mais como vice, não mais como aliado de bastidor, mas como protagonista.
A eleição de 2026 começa a desenhar um cenário em que o governador precisará provar que consegue, além de governar, mobilizar.
Porque no fim das contas, em Mato Grosso, especialmente no interior, política ainda se faz muito no olho no olho, no aperto de mão e na sensação de pertencimento que uma liderança consegue transmitir.






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