Cestas, sextas e sestas

Konrad Felipe/Jornalista – konradfelipe@gmail.com

Há palavras que, apesar de parecidas, carregam significados completamente diferentes.

Cestas são recipientes, mas, no Brasil, tornaram-se sinônimo de solidariedade. São alimentos que chegam à mesa de quem enfrenta dificuldades, fruto dos impostos pagos por toda a sociedade e de políticas públicas criadas para amenizar a fome.

Sextas são o último dia útil para muitos brasileiros. Dia em que o trabalhador encerra mais uma semana de batalha, faz as contas para saber se o salário chegará até o fim do mês e, quando possível, compra a mistura do fim de semana.

Já sestas vêm do costume de descansar depois do almoço. Uma pausa merecida para quem trabalhou a manhã inteira e ainda terá o restante do dia pela frente.

Até aí, tudo faz sentido.

O problema é quando alguém resolve misturar cestas com sextas e transformar a sesta em descanso da própria consciência.

A Operação Mesa Vazia, desencadeada pela Polícia Civil, trouxe à tona mais uma investigação sobre um velho personagem da política brasileira: o oportunista que enxerga o patrimônio público como extensão do quintal de casa.

A história é antiga. Tão antiga quanto as promessas feitas em época de eleição.

Mudam os nomes, mudam os partidos, mudam os discursos. O roteiro, infelizmente, continua parecido.

Quando o dinheiro público aparece, sempre surge quem acredita que o Estado existe para servir aos seus interesses particulares.

Não importa se é combustível, ambulância, medicamentos, merenda escolar, material de construção ou cestas básicas. O cardápio da corrupção apenas troca de ingrediente conforme a oportunidade.

E talvez seja justamente esse o aspecto mais revoltante deste caso.

Não se trata apenas de números.
Não são apenas R$ 1,95 milhão.
Não são apenas cerca de 13 mil cestas básicas.
Estamos falando de comida.
De arroz.
De feijão.
De óleo.

De famílias que talvez tenham ido dormir imaginando que “o benefício ainda não chegou” enquanto, segundo a investigação, ele seguia outro caminho.

Existe corrupção que atinge planilhas.

Esta atinge panelas.

Enquanto uma mãe tentava explicar para o filho por que naquele dia não haveria mistura, alguém, em tese, poderia estar tratando alimento como moeda política, favor pessoal ou patrimônio privado.

É exatamente por isso que esse tipo de notícia provoca indignação muito maior.

Porque a fome não espera despacho judicial.

A fome não conhece burocracia.

A fome não aceita justificativas.

É importante dizer que a investigação ainda está em andamento e que todos os envolvidos têm direito à ampla defesa e à presunção de inocência. A Justiça, inclusive, negou os pedidos de prisão preventiva apresentados pela Polícia Civil, com parecer favorável do Ministério Público, por entender que não estavam presentes os requisitos legais para a medida extrema.

Mas uma investigação dessa dimensão já produz um estrago difícil de reparar.

A confiança da população sofre.

A imagem da cidade sofre.

As instituições precisam trabalhar em dobro para convencer o cidadão de que o dinheiro público ainda pode ser tratado com seriedade.

E quem acaba passando vergonha não é apenas quem figura nos autos.
É Barra do Garças.

É o cidadão honesto que acorda cedo para trabalhar.

É quem paga impostos.

É quem acreditou nas promessas feitas durante a campanha eleitoral e depositou seu voto nas urnas esperando representantes comprometidos com o interesse coletivo.

O voto é um cheque de confiança.

Quando essa confiança é colocada sob suspeita, perde a democracia.
Perde a política.

Perde a população.

Talvez esteja na hora de abandonar aquela velha frase de que “isso sempre aconteceu”.

Porque justamente por sempre ter acontecido é que nunca deveria mais acontecer.

A corrupção deixou de ser novidade faz tempo.

O que precisa ser novidade é a intolerância da sociedade com ela.
Que a Justiça faça seu trabalho.

Que a Polícia Civil conclua a investigação.

Que o Ministério Público exerça seu papel constitucional.

E que a população faça a sua parte quando chegar a próxima eleição.

Porque há uma diferença enorme entre receber uma cesta e entregar um voto.
A primeira mata a fome por alguns dias.

O segundo pode alimentar — ou combater — um sistema inteiro por quatro anos.

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