Konrad Felipe/Jornalista – konradfelipe@gmail.com
Barra do Garças tem artista na Globo. Tem Yrla Braga, nossa atriz, humorista e roteirista, levando o talento barra-garcense para a televisão nacional. Tem também Rafael Pedreiro, um dos grandes fenômenos brasileiros da internet, que saiu dos canteiros de obras da cidade para conquistar milhões de seguidores com simplicidade, criatividade e carisma.
Agora podemos dizer, com orgulho e em alto e bom som: Barra do Garças também tem Kikito. E não é apenas um. Tem dois!
A conquista dos prêmios de Melhor Montagem e do Júri Popular pelo documentário “Divino: Sua Alma, Sua Lente”, no 54º Festival de Cinema de Gramado, representa muito mais do que duas estatuetas colocadas em uma prateleira. É uma vitória histórica para Barra do Garças, para o Vale do Araguaia e para todo Mato Grosso.
O Kikito é um dos símbolos mais importantes do cinema brasileiro. Recebê-lo significa ser reconhecido em um dos palcos mais respeitados do audiovisual nacional. Conquistar dois deles, concorrendo com produções de diferentes regiões do país, mostra que o cinema feito no Araguaia não deve nada ao que é produzido nos grandes centros.
O mais bonito é que essa vitória nasceu daqui. Nasceu do trabalho coletivo, da universidade pública, da sensibilidade dos nossos profissionais e, principalmente, do respeito ao povo Xavante. O documentário acompanha a trajetória de aproximadamente 35 anos do cineasta Divino Tserewahú e mostra como uma câmera pode se transformar em instrumento de memória, resistência, identidade e preservação cultural.
Dirigido pela jornalista Clea Torres e pelo professor Gilson Costa, com codireção de Divino Tserewahú, o filme é uma obra construída com a comunidade de Sangradouro, em General Carneiro. Não se trata de alguém de fora falando sobre os Xavante. É uma produção feita com participação indígena, escuta, diálogo e respeito.
O prêmio de Melhor Montagem, conquistado pelo trabalho de Gilson Costa e Thamires Coelho, reconhece justamente a capacidade de unir imagens atuais e registros históricos para contar uma trajetória de maneira sensível e envolvente. Já o prêmio do Júri Popular possui um sabor ainda mais especial: demonstra que o filme não apenas agradou aos especialistas, mas também tocou o público.
É difícil encontrar reconhecimento maior do que esse: conquistar o olhar técnico dos profissionais do cinema e, ao mesmo tempo, alcançar o coração das pessoas.
Clea, Gilson, Divino, Thamires e toda a equipe merecem os mais efusivos aplausos. São profissionais que acreditaram no potencial das histórias do Araguaia quando talvez muita gente ainda imaginasse que uma produção realizada no interior de Mato Grosso não pudesse chegar tão longe. Eles provaram que poderia. Foram a Gramado, enfrentaram produções de grande estrutura e voltaram com dois Kikitos nas mãos.
Essa é uma conquista construída durante anos. O Núcleo de Produção Digital da UFMT, no Campus Universitário do Araguaia, vem formando profissionais, envolvendo estudantes e ajudando a contar as histórias da região. Os dois Kikitos são também o reconhecimento desse trabalho silencioso, persistente e indispensável.
A vitória demonstra por que precisamos defender e ampliar os investimentos em cultura, cinema, educação e universidade pública. Talentos existem em nossa região. O que muitas vezes falta são oportunidades, financiamento e estruturas que permitam transformar boas ideias em produções capazes de circular pelo Brasil.
“Divino: Sua Alma, Sua Lente” conseguiu fazer exatamente isso. Levou para Gramado a cultura Xavante, a força do Vale do Araguaia, a competência dos profissionais de Barra do Garças e a qualidade da produção audiovisual mato-grossense. Cada vez que o nome do documentário foi anunciado, toda a nossa região subiu ao palco junto com a equipe.
Precisamos comemorar muito. Precisamos divulgar essa conquista nas escolas, universidades, veículos de comunicação e espaços públicos. Nossos jovens precisam saber que é possível fazer cinema a partir de Barra do Garças. Precisam conhecer Divino Tserewahú, Clea Torres, Gilson Costa e todos aqueles que transformaram dedicação em reconhecimento nacional.
Durante muito tempo, o interior foi tratado apenas como cenário. Dessa vez, o Araguaia não foi coadjuvante. Foi autor, personagem, diretor, produtor e vencedor.
Barra do Garças tem Yrla Braga brilhando na Globo. Tem Rafael Pedreiro alcançando milhões de pessoas na internet. Tem artistas, jornalistas, cineastas, professores, estudantes e produtores culturais de enorme competência. E agora tem dois Kikitos para chamar de seus.
Que ninguém volte a dizer que estamos longe dos grandes centros. Quando existe talento, sensibilidade e trabalho sério, o centro pode ser aqui.
O Brasil precisa olhar mais para o Araguaia. Afinal, o Araguaia já mostrou que sabe contar as próprias histórias — e sabe contá-las como poucos.






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