Konrad Felipe/Jornalista – konradfelipe@gmail.com
Existe uma coisa na política que ninguém gosta de experimentar, mas que, cedo ou tarde, acaba batendo à porta de quase todo mundo: a derrota.
Ela não pede licença, não respeita sobrenome, patrimônio ou quantidade de mandatos. Simplesmente chega. E, quando chega, costuma ser cruel.
O candidato passa meses sendo chamado de futuro deputado, recebendo abraços, tapinhas nas costas e ouvindo que a vitória está garantida. No dia seguinte à eleição, descobre que o futuro ficou no passado.
Em Mato Grosso, as eleições deste ano deram uma verdadeira aula sobre o assunto.
Quem imaginaria que Eduardo Botelho, ex-presidente da Assembleia Legislativa, ficaria sem mandato? Foram 37.359 votos, mas insuficientes para garantir uma cadeira. Júlio Campos, ex-governador e ex-senador, também conheceu o gosto amargo da derrota. Paulo Araújo, Elizeu Nascimento e Juca do Guaraná completam a lista dos deputados estaduais que não conseguiram a reeleição.
Na bancada federal, Emanuelzinho, Rodrigo da Zaeli e Nelson Barbudo também ficaram pelo caminho.
Mas o curioso é que, no Brasil, até perder eleição exige uma certa habilidade matemática.
Nilson Leitão recebeu 61.904 votos para deputado federal e não foi eleito. Coronel Roveri conseguiu 47.195 e garantiu sua cadeira em Brasília.
Na disputa estadual, Eduardo Botelho teve 37.359 votos e perdeu. Chico Guarnieri, com 18.842, foi eleito.
Ou seja, teve candidato que ganhou mais votos e perdeu, enquanto outro ganhou menos votos e ganhou.
Não é fraude nem erro de apuração. É o nosso sistema eleitoral proporcional, no qual os votos dos partidos e federações também determinam quem entra e quem fica de fora.
E é justamente nesse momento que me lembro daquela célebre declaração da ex-presidente Dilma Rousseff:
“Não acho que quem ganhar ou quem perder, nem quem ganhar nem perder, vai ganhar ou vai perder. Vai todo mundo perder.”
Na época, muita gente riu. Outros tentaram interpretar. Mas, observando os resultados de Mato Grosso, começo a desconfiar de que Dilma estava apenas alguns anos à frente de seu tempo.
Afinal, tivemos quem ganhou mais votos e perdeu, quem ganhou menos votos e ganhou, quem perdeu o mandato e quem ganhou uma eleição depois de perder outras.
E agora chegamos ao próximo domingo.
De um lado, Lula, tentando conquistar mais quatro anos no Palácio do Planalto. Do outro, Flávio Bolsonaro, carregando o sobrenome mais conhecido da direita brasileira.
No primeiro turno, Flávio saiu na frente, com 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% de Lula. Uma diferença superior a dois milhões de votos.
Mas primeiro turno não é sentença definitiva. Lula perdeu a liderança da primeira etapa, não a eleição. Agora tenta virar o jogo. Flávio, por sua vez, precisa confirmar a vantagem.
Domingo, um deles será eleito presidente da República. O outro terá de reconhecer a derrota.
O interessante é observar como ela muda de significado dependendo de quem a experimenta.
Quando acontece com o adversário, é a vontade soberana do povo. Quando acontece conosco, faltou dinheiro, faltou apoio, faltou estrutura, a pesquisa errou, o partido atrapalhou.
Curiosamente, quase nunca falta uma desculpa.
Mas a derrota também ensina. Lula, por exemplo, perdeu três eleições presidenciais antes de vencer a primeira, em 2002. Se tivesse desistido, sua história seria diferente.
Talvez essa seja a maior lição das urnas: perder não significa necessariamente fracassar. Às vezes, significa apenas que chegou a hora de repensar os caminhos.
Quem ganha comemora. Quem perde, se tiver humildade, aprende.
E isso vale para todos nós, que também acumulamos derrotas na vida. Perdemos oportunidades, empregos, amizades e sonhos. O importante é não transformar uma derrota em condenação perpétua.
Quanto ao domingo, cada eleitor tem suas convicções e seu candidato. Faz parte da democracia. O que não deveria fazer parte é transformar quem pensa diferente em inimigo.
Afinal, Lula continuará sendo Lula, Flávio continuará sendo Bolsonaro, e nós continuaremos tendo de trabalhar na segunda-feira, pagar as contas e cobrar soluções.
No fim das contas, talvez Dilma tenha resumido tudo, mesmo sem conseguir explicar direito.
Domingo alguém vai ganhar, alguém vai perder, e haverá quem diga que ganhou mesmo perdendo ou que perdeu apesar de ter ganhado.
Só espero que, depois de tanta confusão, quem não saia perdendo seja o povo brasileiro.







Seja o primeiro a comentar sobre "A DERROTA"