Konrad Felipe/Jornalista – konradfelipe@gmail.com
Quando a política vira perseguição, a fé perde o sentido e a solidariedade se transforma em espetáculo.
As eleições passaram, mas parece que algumas pessoas ainda não entenderam que a democracia não termina quando o candidato de sua preferência perde. Em Barra do Garças, a circulação de listas identificando comerciantes e empresários por suas posições políticas acendeu um sinal de alerta. O objetivo de algumas dessas iniciativas é constranger e incentivar boicotes contra quem pensa diferente.
É assustador perceber até onde a intolerância pode chegar.
Em 1º de abril de 1933, na Alemanha nazista, estabelecimentos comerciais pertencentes a judeus foram alvos de um boicote organizado. Homens uniformizados ficaram diante das lojas com cartazes orientando a população a não comprar daqueles comerciantes. Era o início de uma política de exclusão que culminaria em uma das maiores tragédias da humanidade.
Evidentemente, não estamos vivendo a Alemanha de Hitler. Mas a história existe justamente para nos ensinar a reconhecer comportamentos perigosos antes que eles se normalizem. Identificar comerciantes por suas convicções e incentivar sua exclusão econômica é um desses sinais.
Em Barra do Garças, a própria OAB manifestou preocupação com relatos de perseguição profissional. E precisamos fazer uma pergunta: desde quando votar em Lula, em Flávio Bolsonaro ou em qualquer outro candidato tornou alguém menos digno de trabalhar, vender ou sustentar sua família?
O problema não termina nas listas. Depois das eleições, surgiram anúncios de empresas e apoiadores do bolsonarismo suspendendo ações sociais e doações em razão do resultado das urnas.
É aqui que entra uma questão ainda mais profunda: afinal, estavam ajudando por amor ao próximo ou pelos likes nas redes sociais?
Porque a verdadeira caridade não exige título de eleitor. A fome não pergunta em quem você votou. A criança que precisa de alimento não conhece direita nem esquerda.
É triste ver pessoas que tanto falam em Deus, família e valores cristãos condicionarem a solidariedade a uma preferência partidária. Deus não pode estar apenas no discurso, enquanto falta amor no coração. Ajudar quem concorda conosco é fácil. O verdadeiro exercício da fé aparece quando conseguimos estender a mão também a quem pensa diferente.
Isso não significa que todos os bolsonaristas sejam intolerantes, assim como não significa que a esquerda esteja imune ao extremismo. Significa apenas que nenhuma convicção política justifica a perseguição.
Ninguém é obrigado a comprar em determinado estabelecimento. Mas transformar divergências em campanhas de humilhação, ameaças e prejuízos é outra história.
Aos que elaboram e compartilham essas listas, fica uma reflexão: amanhã poderá ser o seu nome, a sua empresa, o seu emprego ou a sua família.
Barra do Garças é maior que essa divisão. O Brasil também.
Presidentes passam. Governadores passam. Deputados passam. Mandatos terminam. Mas o comerciante continuará abrindo as portas, o trabalhador continuará buscando seu sustento e o vizinho continuará morando ao nosso lado.
Somos brasileiros antes de sermos eleitores de qualquer político.
E, se realmente acreditamos em Deus, precisamos compreender que não existe amor ao próximo com lista de inimigos na mão.
A política não pode nos fazer perder aquilo que temos de mais importante: a humanidade.







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