Aurora, política e memória: o Vale do Araguaia no centro do debate mato-grossense

Konrad Felipe/Jornalista – konradfelipe@gmail.com

O dia amanheceu em Barra do Garças sob uma chuva mansa, dessas que refrescam o chão e acalmam a alma. No romper da aurora, a cidade acordou lembrando que, apesar das inquietações do tempo presente, a vida segue sustentada por algo maior. Como diz o Salmo 3, versículo 5: “Eu me deitei, dormi, acordei e levantei, porque o Senhor me sustentou”. Descansar e despertar, afinal, também são atos de fé e provisão divina.

Na quarta-feira, 21 de janeiro de 2026, o calendário político também despertou. Faltam 256 dias para as eleições nacionais e estaduais, marcadas para 4 de outubro. O tempo, como sempre em ano eleitoral, parece correr mais rápido, especialmente para pré-candidatos e lideranças que já se movimentam no tabuleiro da política mato-grossense. O caldeirão está no fogo — e ferve.

Foi nesse clima que o podcast “Frente a Frente com o Araguaia” recebeu dois nomes que atravessam décadas da história política do estado: o senador Jaime Veríssimo de Campos, pré-candidato ao Governo de Mato Grosso, e seu irmão, o deputado estadual Júlio José de Campos. Filhos do saudoso Júlio Domingos de Campos e de dona Amália Curvo de Campos, ambos carregam uma trajetória que se confunde com a própria formação política e administrativa de Mato Grosso.

Jaime Campos, nascido em Várzea Grande em 13 de setembro de 1951, carrega no discurso e na postura a confiança de quem já ocupou praticamente todos os cargos possíveis na política estadual: três vezes prefeito, governador, senador por dois mandatos consecutivos. Aos 74 anos, brinca com a idade, mas demonstra vigor, lucidez e disposição de quem se sente preparado para mais um desafio. Júlio Campos, prestes a completar 80 anos, mantém o mesmo tom: não teme disputa, não escolhe adversário e segue ativo, defendendo o municipalismo e o fortalecimento do papel social do Estado.

Ao longo da conversa, Jaime Campos deixou claro o motivo de sua pré-candidatura: experiência, conhecimento do território e, sobretudo, gosto pela política feita com gente. Relembrou a eleição de 1990, quando venceu o governo com ampla maioria, ao lado do irmão eleito senador, em um feito que até hoje não se repetiu em Mato Grosso. Mais do que números, destacou o que chama de política com respeito, diálogo e resultado.

No presente, o senador critica o empobrecimento do debate público, marcado por polarizações vazias e pela transformação da política em “balcão de negócios”. Defende que o Estado, hoje rico em arrecadação — com cifras bilionárias —, precisa olhar com mais atenção para quem está na ponta: os municípios, os servidores públicos, as famílias que ainda vivem abaixo da linha da pobreza, especialmente no interior e em regiões como o Vale do Araguaia.

A fala de Júlio Campos reforçou essa visão. Segundo ele, o legado da família Campos não está apenas no passado, mas na atuação contínua, especialmente na destinação de emendas parlamentares sem discriminação partidária. Para Júlio, a pré-candidatura de Jaime é consequência natural de uma trajetória municipalista e da ausência de um projeto estadual que enfrente, de forma direta, problemas estruturais como saúde, segurança pública, habitação e desigualdade social.

O debate avançou por temas sensíveis: atrasos salariais do passado, o papel da União após a divisão do Estado, a crise da segurança, o déficit habitacional, a valorização (ou a falta dela) do servidor público e a concentração de riqueza em poucas mãos. Jaime Campos foi enfático ao afirmar que Mato Grosso não pode ser apenas um Estado rico em números, mas pobre em justiça social. “A riqueza precisa chegar onde o povo está”, resumiu.

Mais do que uma entrevista, o encontro revelou algo maior: a disputa de narrativas sobre o futuro de Mato Grosso. De um lado, a defesa de um modelo centrado no equilíbrio fiscal e no empresariado; de outro, a proposta de um Estado mais presente, com investimentos sociais, valorização do serviço público e desenvolvimento regional equilibrado.

Enquanto a chuva fina seguia caindo sobre Barra do Garças, ficava claro que o amanhecer daquele dia simbolizava mais do que um novo capítulo do podcast. Era, também, o prenúncio de um longo e intenso debate político que, goste-se ou não, vai atravessar 2026 no Vale do Araguaia e em todo Mato Grosso.

E, como ensina o salmista, seguimos deitados, despertos e sustentados — agora, atentos aos rumos que se desenham.

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