Dois hinos, o mesmo amor por Barra do Garças

Konrad Felipe/Jornalismo – konradfelipe@gmail.com

Há músicas que guardam um pouco da vida da gente. Quando tocam, trazem de volta lugares, pessoas e lembranças que pareciam esquecidas. Neste 15 de setembro, quando Barra do Garças celebra 78 anos de emancipação político-administrativa, a história de seus dois hinos me leva também às conversas que ouvia na escola, ainda menino.

Cheguei a Barra em 1994, aos nove anos. Em 1997, quando estudava na Escola Agrícola, já ouvia os professores falarem dessa história. Naquele tempo, era uma curiosidade que ficava na memória. Anos depois, trabalhando como assessor de imprensa da Câmara Municipal, voltei ao assunto quando o então presidente, Miguelão, me pediu que verificasse qual era o hino oficial para a abertura das sessões.

Fui pesquisar e encontrei nos documentos uma história que havia começado a conhecer na sala de aula.

Em 28 de setembro de 1990, o prefeito Paulo Raye assinou o Decreto nº 1.343, oficializando o “Hino de Barra do Garças”, de Valdon Varjão e Frederico A. Rondon. A obra, composta por nove estrofes, foi reconhecida como símbolo do município.

Sua letra apresenta uma cidade hospitaleira, orgulhosa de suas origens e confiante no futuro. As montanhas, os garimpeiros e as pessoas vindas de diferentes lugares aparecem como parte dessa construção. É uma homenagem solene, com palavras que expressam a esperança de ver Barra crescer e oferecer um futuro promissor à sua gente.

Três anos depois, a cidade escolheu outra composição para representá-la. A Lei nº 1.612, de 17 de junho de 1993, previu um concurso para a escolha do hino municipal. A vencedora foi “Eu Amo Barra”, de Eudes Roberto de Arruda Chaves, interpretada por Eudes e Candinho. Conforme o registro, a oficialização ocorreu em 5 de agosto daquele ano, pelo Decreto nº 1.554, na gestão do prefeito Wilmar Peres de Farias.

Ao comparar as duas letras, percebemos que o sentimento é próximo, embora a maneira de expressá-lo seja diferente. O hino de 1990 destaca a grandeza da cidade, suas tradições e a confiança no desenvolvimento. O atual se aproxima de uma conversa afetuosa com Barra, de alguém que conhece suas paisagens e deseja vê-la cada vez mais bonita.

A natureza e a memória garimpeira aparecem nas duas composições. São referências que ajudam a contar de onde viemos. No hino atual, as praias, a serra, o sol e a lua também despertam lembranças pessoais. Quem mora aqui consegue associar essas imagens a um passeio, a uma tarde em família ou a algum momento da própria infância.

É assim que uma música passa a fazer parte da vida de uma cidade. Cada pessoa encontra nela sua própria lembrança. E a frase “Eu amo Barra, eu vivo aqui” acaba reunindo sentimentos de quem nasceu nesta terra e de quem chegou depois e criou raízes.

Revisitar essa história também me faz reconhecer o valor daqueles professores da Escola Agrícola. O que eles contavam em 1997 permaneceu comigo. Mais tarde, a pesquisa na Câmara deu outro significado à lembrança e me permitiu compreender melhor os símbolos da cidade onde cresci.

Minha ligação com Barra também foi fortalecida pela distância. Precisei ir embora para estudar Jornalismo porque, naquela época, o curso ainda não era oferecido aqui. Fui para Alto Araguaia, onde me formei em 2012. Depois, Barra passou a contar com o curso, abrindo para outros estudantes uma possibilidade que eu não havia encontrado quando chegou a minha vez de escolher uma profissão.

Desde 2013, trabalho com jornalismo na cidade. Contar suas histórias se tornou parte da minha vida. São histórias de conquistas, dificuldades, gente que insiste e pessoas que fazem a diferença sem esperar reconhecimento. Ao ouvi-las, continuo conhecendo a cidade à qual cheguei ainda menino.

Também vivi meus próprios altos e baixos aqui. Houve alegrias, decepções e momentos em que foi preciso recomeçar. Mas meu carinho por Barra permaneceu. Ele está nas amizades, na família, nas lembranças da escola e na vontade de contribuir para que a cidade seja melhor para todos.

Por isso, preservar os dois hinos é também respeitar quem ajudou a construir nossa memória. A composição de Valdon Varjão e Frederico A. Rondon guarda seu valor histórico. A de Eudes acompanha a vida da cidade e continua dando voz ao sentimento de seus moradores. Ambas merecem ser conhecidas pelas novas gerações.

Neste aniversário, os parabéns vão a Barra do Garças e à sua gente. A quem trabalha, educa, cuida, acolhe e encontra forças para seguir. É essa vida compartilhada que dá sentido às homenagens e às palavras que cantamos.

Parabéns pelos seus 78 anos, Barra. Cheguei aqui criança, saí para estudar e encontrei nesta cidade o lugar onde exercer minha profissão e construir minha vida. Hoje, quando ouço seu hino, lembro também dos professores que me apresentaram essa história e de tudo o que vivi desde então.

Amo Barra. E continuo desejando que ela seja, para tanta gente, o lugar de pertencimento que é para mim.

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