Investigação sobre o acordo de R$ 308 milhões com a Oi provocou troca do candidato a vice, baixas no primeiro escalão e dificuldades na articulação governista; pesquisa coloca Pivetta oito pontos atrás de Wellington, enquanto Mauro segue tecnicamente empatado na liderança da disputa pelas duas vagas ao Senado
Da Redação
A Operação Heritage, deflagrada pela Polícia Federal contra um suposto esquema de desvio de mais de R$ 308 milhões relacionado a um acordo entre o Governo de Mato Grosso e a operadora Oi, já produz consequências políticas na campanha à reeleição do governador Otaviano Pivetta (Republicanos). Entretanto, os números mais recentes ainda não apontam um impacto eleitoral direto sobre a candidatura do ex-governador Mauro Mendes (União Brasil) ao Senado.
O efeito mais visível da operação ocorreu na chapa governista. Alvo das investigações, o deputado federal Fábio Garcia (União Brasil) desistiu de concorrer a vice-governador e retornou à disputa pela Câmara Federal. A decisão obrigou Pivetta a reorganizar a composição majoritária e escolher Gisela Simona (União Brasil) como nova candidata a vice.
A mudança ocorreu depois que o ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), proibiu o contato entre investigados. Fábio Garcia reconheceu publicamente que a restrição de comunicação com Mauro Mendes criaria dificuldades para a condução de uma campanha conjunta, que envolve reuniões, viagens, gravações e participação em atos eleitorais.
Pivetta negou rompimento com Mauro e reafirmou que o ex-governador continua sendo o seu principal candidato ao Senado. Mesmo assim, a substituição do vice em plena largada da campanha confirma que a Operação Heritage já interfere diretamente na organização eleitoral do grupo governista.
PF investiga acordo de R$ 308 milhões
A Polícia Federal deflagrou a Operação Heritage no dia 6 de agosto para investigar, em tese, crimes de organização criminosa, peculato, lavagem de dinheiro, crimes contra o Sistema Financeiro Nacional e uso indevido de informação privilegiada.
Foram cumpridos 25 mandados de busca e apreensão, expedidos pelo STF, em Mato Grosso, São Paulo, Rondônia e Ceará. A Justiça também determinou a quebra dos sigilos bancário e fiscal, o bloqueio e a indisponibilidade de bens no limite aproximado de R$ 316 milhões, o recolhimento de passaportes e a proibição de contato entre investigados.
As investigações tiveram origem na análise de um acordo celebrado durante o governo Mauro Mendes para a restituição de valores decorrentes de uma disputa tributária com a Oi. Segundo a PF, existem indícios de que a operação financeira tenha sido utilizada para desviar mais de R$ 308 milhões por meio de fundos de investimento em cascata e empresas interpostas.
Entre os nomes citados nas reportagens sobre a operação estão Mauro Mendes, Fábio Garcia, o ex-secretário-chefe da Casa Civil Mauro Carvalho, o desembargador Ricardo Gomes de Almeida, o conselheiro do Conselho Nacional de Justiça Ulisses Rabaneda e integrantes da Procuradoria-Geral do Estado.
A inclusão de uma pessoa entre os alvos de diligências ou medidas cautelares não representa condenação. A investigação continua em andamento e todos têm direito à defesa e à presunção de inocência.
Caminho do dinheiro está sob investigação
A apuração busca esclarecer o percurso dos recursos depois da celebração do acordo. Conforme os elementos mencionados na decisão judicial, a Oi havia cedido os direitos creditórios ao escritório Ricardo Almeida Advogados Associados por cerca de R$ 80 milhões.
Meses depois, o Estado concordou em restituir aproximadamente R$ 308,1 milhões. Os pagamentos foram direcionados aos fundos Royal Capital e Lotte Word, criados pouco antes da formalização do acordo. A partir daí, segundo a investigação, o dinheiro teria passado por diferentes fundos e empresas.
A suspeita é de que parte dos valores tenha alcançado investimentos ligados a familiares de Mauro Mendes e Fábio Garcia. A PF procura determinar se essa estrutura possuía justificativa econômica legítima ou se foi montada para dificultar o rastreamento da origem e da destinação do dinheiro público.
O ministro Flávio Dino também determinou que instituições financeiras e gestoras apresentem documentos sobre os fundos, seus cotistas, operações, lastros, controles internos e beneficiários finais. A análise desse material deverá ajudar a esclarecer se houve irregularidade e quem teria sido beneficiado.
Crise provoca baixas no governo
Além da saída de Fábio Garcia da chapa de Pivetta, a operação provocou mudanças no primeiro escalão estadual. O procurador-geral do Estado, Francisco Lopes, deixou o cargo, e Mauro Carvalho pediu exoneração da Casa Civil cinco dias depois de ser alvo das diligências.
A Justiça não havia determinado o afastamento de Mauro Carvalho. O STF rejeitou esse pedido por considerar que, naquele momento, não foram apresentados elementos concretos de que sua permanência no cargo representaria risco à investigação. A exoneração ocorreu posteriormente, por decisão do próprio secretário.
Esses episódios ampliaram a necessidade de reorganização administrativa e eleitoral do governo justamente no início da campanha. Ao mesmo tempo, a proibição de contato entre integrantes importantes da aliança limita a coordenação política do grupo.
Pesquisa mostra Pivetta atrás de Wellington
A pesquisa Real Time Big Data divulgada nesta quarta-feira, 12 de agosto, coloca Wellington Fagundes (PL) na liderança da disputa pelo Governo de Mato Grosso, com 34% das intenções de voto. Pivetta aparece em segundo lugar, com 26%, uma diferença de oito pontos percentuais.
Natasha Slhessarenko (PSD) tem 13%; Rafael Milas (Missão), 3%; e Sargento Laudicério (Agir), 1%. Maurício Coelho (Mobiliza) não pontuou. Brancos e nulos somam 12%, enquanto 11% não souberam ou não responderam.
Em um eventual segundo turno, Wellington registra 45%, contra 32% de Pivetta. O levantamento também aponta que o governador tem o maior índice de rejeição entre os nomes testados: 38%.
Apesar disso, a administração estadual apresenta 64% de aprovação, indicando que Pivetta enfrenta dificuldades para transformar a avaliação positiva do governo em intenção pessoal de voto.
O levantamento foi realizado entre os dias 7 e 11 de agosto, portanto depois da deflagração da Operação Heritage, ocorrida no dia 6. A pesquisa captou parte da primeira repercussão do caso, mas terminou justamente quando as principais mudanças na chapa estavam acontecendo.
Por essa razão, ainda não é possível atribuir exclusivamente à operação os oito pontos de diferença entre Wellington e Pivetta. O que já pode ser afirmado é que o caso atrapalha concretamente a estrutura e a narrativa da campanha governista, que precisou trocar o vice e recompor sua coordenação política.
Mauro continua entre os dois primeiros ao Senado
Na disputa pelas duas vagas ao Senado, a mesma pesquisa não mostra, por enquanto, uma queda capaz de retirar Mauro Mendes das primeiras posições.
No resultado consolidado dos dois votos, Mauro aparece com 27%, seguido pela deputada estadual Janaína Riva (MDB), com 25%. Os dois estão tecnicamente empatados, considerando a margem de erro de dois pontos percentuais.
Carlos Fávaro (PSD) aparece com 13%; José Medeiros (PL), com 12%; e Pedro Taques (PSB), com 11%. Antônio Galvan (Avante) e Margareth Buzetti (PP) registram 4% cada.
Como Mato Grosso elegerá dois senadores e cada entrevistado pôde indicar dois candidatos, os percentuais representam a distribuição consolidada das escolhas e não devem ser interpretados como uma disputa por apenas uma vaga.
Os números mostram que, neste primeiro momento, a Operação Heritage ainda não retirou Mauro da faixa eleitoral que lhe garantiria uma das duas cadeiras. Isso não significa que o caso não possa produzir consequências futuras, especialmente com o avanço da investigação, a divulgação de novos documentos e o início efetivo da campanha.
Além disso, o trabalho de campo começou apenas um dia depois da operação e terminou antes que todos os desdobramentos políticos fossem conhecidos. Assim, a pesquisa registra uma fotografia inicial da reação do eleitorado, não uma conclusão definitiva sobre os danos à candidatura.
Empresa ligada a Pivetta é citada em reportagem
A pressão sobre a campanha aumentou nesta quarta-feira, 12, depois que o PNB Online publicou reportagem apontando que a Brasbio Brasil Bioenergia, empresa constituída por grupos econômicos ligados a Pivetta e Mauro Carvalho, recebeu investimentos de entidades mencionadas no contexto da Operação Heritage.
De acordo com a reportagem, o fundo Green Lake teria investido R$ 10,9 milhões na empresa. Outros aportes teriam sido realizados pela Vyas Energia e pela H4 Holding, ligadas a Mauro Carvalho. A publicação não apresentou conclusão da Polícia Federal de que a Brasbio ou Pivetta tenham participado de alguma ilegalidade.
Em resposta, o Governo de Mato Grosso afirmou que Pivetta não é investigado nem acusado de participação no suposto esquema. A Brasbio declarou que não possui relação com o caso, que suas operações societárias foram formalmente registradas e que os recursos recebidos passaram por procedimentos de conformidade e análise.
A empresa também informou que poderá adotar medidas jurídicas contra associações que considere indevidas ou afirmações que atinjam sua imagem e a de seus acionistas.
O que dizem os citados
Mauro Mendes negou irregularidades e classificou a investigação como uma “armação eleitoral”. Segundo o ex-governador, o acordo foi homologado judicialmente, representou economia para o Estado e teria recebido manifestações favoráveis de órgãos de controle.
O Ministério Público Estadual e o Tribunal de Contas, contudo, informaram que ainda existem procedimentos em andamento sobre o caso. As instituições ressaltaram que conclusões sobre eventuais responsabilidades dependem do encerramento das apurações.
A Procuradoria-Geral do Estado informou que confia nas investigações e que colaborará com todas as informações requisitadas.
Ulisses Rabaneda declarou que sua participação ocorreu exclusivamente no exercício da advocacia, antes de assumir uma cadeira no CNJ, e que os honorários recebidos decorreram de contrato regular e declarado.
Ricardo Gomes de Almeida afirmou que sua atuação foi técnica, regular e dentro da legalidade. Mauro Carvalho também negou ter participado das tratativas do acordo ou recebido qualquer benefício financeiro.
Impacto político ainda está em construção
A Operação Heritage já atingiu a campanha de Pivetta de maneira objetiva: retirou seu candidato a vice, provocou baixas no governo, restringiu o contato entre aliados e obrigou a coligação a reorganizar sua estratégia na véspera do início oficial da campanha.
Nas urnas, entretanto, o tamanho desse desgaste ainda não pode ser medido de forma definitiva. Pivetta aparece oito pontos atrás de Wellington, mas Mauro Mendes continua, ao lado de Janaína Riva, na faixa correspondente às duas vagas em disputa pelo Senado.
A eleição ainda está aberta, e os efeitos mais profundos dependerão dos próximos passos da Polícia Federal, das decisões do STF, das provas eventualmente reunidas, das respostas apresentadas pelas defesas e da forma como o eleitorado avaliará o caso durante a campanha.
Metodologia da pesquisa: o Real Time Big Data entrevistou 1.600 eleitores de Mato Grosso entre os dias 7 e 11 de agosto. A margem de erro é de dois pontos percentuais, para mais ou para menos, com nível de confiança de 95%. O levantamento está registrado no TSE sob o número MT-04560/2026.






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