Do Araguaia para Gramado: documentário sobre cineasta Xavante conquista dois Kikitos

Foto oficial: Edison Vara/Ag.Pressphoto

Documentário sobre a trajetória do cineasta Xavante Divino Tserewahú foi construído coletivamente com a comunidade de Sangradouro e venceu os prêmios de Melhor Montagem e do Júri Popular no Festival de Gramado

Da Redação

O documentário “Divino: Sua Alma, Sua Lente”, produzido no Vale do Araguaia, conquistou dois Kikitos na 54ª edição do Festival de Cinema de Gramado, um dos mais tradicionais eventos cinematográficos do Brasil. A obra venceu os prêmios de Melhor Montagem e do Júri Popular na mostra competitiva de curtas-metragens brasileiros.

Dirigido pela jornalista Cléa Torres e pelo professor Gilson Moraes da Costa, com codireção do cineasta Xavante Divino Tserewahú, o filme ficou entre os 12 selecionados para a competição, após o festival receber cerca de mil inscrições de diferentes regiões do país.

A produção apresenta a trajetória de aproximadamente 35 anos de Divino Tserewahú no audiovisual. Por meio de imagens, fotografias e registros históricos, o documentário mostra como o cineasta utiliza a câmera para preservar a memória, acompanhar as transformações de sua comunidade e apresentar a cultura do povo Xavante.

Gravado na Terra Indígena Sangradouro, no município de General Carneiro, o filme é resultado de uma relação construída ao longo de vários anos entre os realizadores e a comunidade indígena.

Segundo Cléa Torres, há mais de uma década Gilson Costa desenvolve, por meio do Núcleo de Produção Digital (NPD), ações audiovisuais em parceria com o povo Xavante. A parceria entre os dois diretores começou em 2016, durante o curso de Jornalismo, e resultou em diferentes produções realizadas com as comunidades indígenas da região.

“Foi essa experiência que nos trouxe até aqui: um trabalho sensível, que respeita as singularidades e as sutilezas do povo Xavante. Realizamos uma produção voltada para a construção coletiva”, afirmou Cléa.

A participação da comunidade de Sangradouro ocorreu em diferentes etapas do documentário. Além de ser personagem central e codiretor da obra, Divino Tserewahú também atuou na tradução e na consultoria técnica do projeto.

A trilha sonora igualmente nasceu da participação direta da comunidade. De acordo com Cléa, os anciões da aldeia cederam cânticos sagrados para integrar o filme.

“Um documentário realizado em terra indígena possui justamente essa característica de colaboração direta com a comunidade. Cada etapa do filme foi respeitada e dialogada. A aldeia Sangradouro foi o nosso primeiro local de exibição”, explicou.

Conquista coletiva

Para Cléa, os dois Kikitos representam o reconhecimento de uma equipe de profissionais do audiovisual independente que atua em parceria com o NPD da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), Campus do Araguaia.

“É uma conquista coletiva do nosso grupo de profissionais do audiovisual independente, que atua em parceria com o NPD. Carina, Cristiano, Nathalia, Aliana, Divino, Gilson, Patrícia, Fátima e Yandra: estamos sempre trabalhando em conjunto”, destacou.

A diretora explicou que os projetos desenvolvidos pelo grupo possuem caráter coletivo, educacional e de formação profissional, contribuindo também para o fortalecimento da cadeia cultural de Barra do Garças e da região.

“Os nossos projetos têm essa característica de serem construídos de forma coletiva, fortalecendo a cadeia cultural do município. Além disso, nossos trabalhos também têm um caráter educacional e de formação. Por isso, buscamos envolver os estudantes do curso de Jornalismo nos processos de produção”, acrescentou.

A equipe do documentário reúne profissionais indígenas e não indígenas. A produção executiva é da jornalista e produtora cultural Carina Benedeti, a direção de fotografia é do cinegrafista Cristiano Costa e a assistência de produção ficou sob responsabilidade da jornalista Nathalia Gonçalves. Professores, estudantes e egressos do curso de Jornalismo da UFMT também participaram do projeto.

Audiovisual do Araguaia

Cléa Torres avalia que a premiação coloca a produção audiovisual regional em uma nova posição no cenário brasileiro, mas lembra que o trabalho desenvolvido no Araguaia é resultado de uma trajetória construída há vários anos.

“Essa é a primeira vez que um filme produzido no Araguaia ganha dois Kikitos, mas não será a última. A produção audiovisual de Barra do Garças não começou agora. Muitos profissionais já levaram suas obras para o Brasil afora, demonstrando as singularidades e as potencialidades da nossa região”, declarou.

Para a diretora, o reconhecimento obtido em Gramado também demonstra o amadurecimento das produções realizadas com o apoio do Núcleo de Produção Digital.

“Sem dúvida, essa é uma conquista que posiciona o NPD e a UFMT Araguaia no cenário audiovisual nacional e demonstra o amadurecimento das nossas obras produzidas no Núcleo de Produção Digital”, completou.

O documentário foi viabilizado com recursos da Lei Paulo Gustavo e contou com o apoio do NPD da UFMT. O projeto reforça a importância do financiamento público e da participação das universidades na produção cultural realizada fora das capitais e dos grandes centros.

Cinema nas escolas e nos festivais

Antes de conquistar os Kikitos, “Divino: Sua Alma, Sua Lente” já havia iniciado uma trajetória de circulação. A primeira exibição aconteceu na própria aldeia Sangradouro. Posteriormente, o documentário foi apresentado em Barra do Garças pelo Cineclube Roncador e levado a mais de dez escolas do município.

“Nossa característica, enquanto realizadores, é democratizar o acesso ao cinema em toda a sua potência. Exibimos o filme em Barra do Garças assim que o finalizamos, por meio do Cineclube Roncador, logo após a exibição na aldeia Sangradouro”, contou Cléa.

A obra também integrou a Mostra Nacional do Sesc e deverá ser apresentada em unidades da instituição de diferentes regiões do país. Segundo a diretora, o documentário ainda participará de outros quatro festivais, incluindo um evento no Rio Grande do Norte.

“Nossa trajetória sempre esteve muito voltada para a educação. Por isso, estamos circulando com o filme por diversos festivais pelo Brasil”, explicou.

Cléa não descarta uma nova sessão em Barra do Garças depois da conquista em Gramado. “Em um momento oportuno, podemos realizar uma segunda exibição. Por meio do NPD, essa característica vem se consolidando: sempre que finalizamos um filme, o primeiro espaço de diálogo é a nossa própria comunidade”, concluiu.

Realizado desde 1973, o Festival de Cinema de Gramado é uma das principais vitrines do audiovisual brasileiro. Em sua 54ª edição, realizada entre os dias 12 e 22 de agosto, o evento reuniu produções brasileiras, latino-americanas e ibero-americanas na Serra Gaúcha.

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