Konrad Felipe/Jornalista – konradfelipe@gmail.com
Em Barra do Garças, o teleférico possui uma capacidade extraordinária: consegue voltar à pauta repetidas vezes sem nunca sair do lugar. Prometido desde o governo de Silval Barbosa, o projeto reaparece de tempos em tempos, mas continua sem cronograma, orçamento atualizado ou previsão concreta de execução.
A cada novo anúncio, visita técnica ou fotografia de algum equipamento funcionando em outra cidade, a população é convidada a acreditar que, agora, finalmente, o velho sonho poderá virar realidade.
Mas o povo já ouviu essa história antes. E não foi uma vez.
Há mais de uma década, ainda durante o governo de Silval Barbosa, o então deputado estadual Adalto de Freitas, o Daltinho, levou ao governador a proposta de construção de um teleférico ligando a região do Porto do Baé ao alto da Serra Azul. Naquela época, a obra chegou a ser estimada em aproximadamente R$ 6 milhões. Houve promessa, fotografia e entusiasmo. O que não houve foi teleférico.
Os anos passaram, os personagens políticos mudaram e a proposta retornou. Em 2021, a Prefeitura procurou a Secretaria de Estado de Meio Ambiente para obter informações sobre a viabilidade do empreendimento. Em 2023, foi aberto um Procedimento de Manifestação de Interesse destinado à realização de estudos técnicos e à estruturação de uma possível parceria público-privada. A primeira chamada foi declarada deserta, sem interessados, e o prazo precisou ser reaberto.
O cidadão tem o direito de perguntar: o que aconteceu depois?
Em 2024, uma comitiva formada por representantes da Prefeitura, vereadores e empresários viajou a Poços de Caldas, em Minas Gerais, para conhecer o teleférico da cidade. Em 2025, uma nova visita técnica foi realizada, desta vez em Balneário Camboriú, quando surgiram anúncios envolvendo teleférico, roda-gigante, lojas, bares, restaurantes e um grande complexo turístico no Porto do Baé.
Agora, em 2026, imagens de teleféricos da Croácia e da Suíça, registradas durante a viagem de um casal de empresários de Barra do Garças, reacenderam novamente o assunto. A comparação é válida e o entusiasmo de quem acredita no turismo local merece respeito. Também é justo reconhecer a persistência do empresário Creudson Pereira de Ávila, o Gordintur, um dos principais defensores da proposta.
É nesse novo momento que merece destaque a atuação do empresário. Enquanto muitos apenas repetiram promessas ou utilizaram o teleférico como discurso político, Gordintur assumiu o projeto como uma bandeira pessoal e empresarial. Ele tem buscado referências, aproximado empresários, dialogado com autoridades e mantido o debate sobre o desenvolvimento turístico de Barra do Garças.
O problema não é sonhar grande. Barra do Garças possui potencial de sobra para investir no turismo. Temos a Serra Azul, o Mirante do Cristo, cachoeiras, trilhas, praias, águas termais e uma localização privilegiada. Um teleférico poderia ampliar a acessibilidade, aumentar a permanência dos visitantes e movimentar hotéis, restaurantes, comércio e serviços.
O problema é transformar uma boa ideia em promessa permanente.
Depois de tantos anos, já não basta divulgar imagens de equipamentos funcionando em outras cidades. Não basta organizar viagens, apresentar montagens ilustrativas ou anunciar que determinados procedimentos “estão sendo encaminhados”. É preciso apresentar documentos, números, responsabilidades e prazos.
Qual será o trajeto definitivo? A área está regularizada? O licenciamento ambiental é possível? Existe estudo de impacto sobre o Parque Estadual da Serra Azul? Quanto custará a obra atualmente? Quem financiará sua implantação? Haverá dinheiro público? Qual será o valor do ingresso? Quem ficará responsável pela operação e pela manutenção? O que aconteceu com o PMI aberto em 2023?
Essas perguntas não representam oposição ao desenvolvimento. Pelo contrário: representam o desejo de que o projeto seja tratado com seriedade. Turismo sustentável exige planejamento ambiental, segurança, viabilidade econômica, acessibilidade e transparência. Uma estrutura dessa dimensão não pode ser conduzida apenas pelo entusiasmo ou pela proximidade de mais uma eleição.
Barra do Garças não precisa de novas fotografias de teleféricos europeus. Precisa conhecer o projeto de Barra do Garças.
Quando o primeiro cabo for instalado, a primeira estação começar a ser construída e existir um contrato com prazo, orçamento e responsável claramente definidos, será justo reconhecer o avanço e comemorar. Até lá, entusiasmo não é realização, visita técnica não é obra, montagem não é projeto e promessa não é política pública.
Enquanto nada disso for apresentado, o teleférico continuará sendo a única obra de Barra do Garças que sobe nos discursos, atravessa décadas de promessas, mas nunca desce para o chão da realidade.






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